Sunday, December 27, 2015

O deus do consumo

Em um mundo onde o valor de uma pessoa é medido pela sua capacidade (e efetividade) de consumo, optar por não consumir não pode ser considerado uma medida popular. É verdade que há, atualmente, certo glamour em um estilo de vida alternativo, mas somente quando esse estilo é devidamente registrado por um iphone 5 em fotos e vídeos belíssimos e publicado em algum blog ou site hipster. De qualquer forma, um estilo de vida mais leve e generoso só faz sucesso quando o personagem que o encarna também o faz.

Um ricaço generoso e bonitão que constrói casas para desabrigados é admirado não por ser generoso e construir casas, mas justamente por ser um ricaço bonitão fazendo isso. O subproduto derivado desse personagem é o sujeito que sonha em ser rico e bonito para poder construir casas para desabrigados.

Um pé rapado que generosamente se dispõe a bater barro em paredes de pau a pique no sertão sem nada receber em troca, segue sendo um pé rapado como qualquer outro. Sua história pode gerar alguma empatia rápida, mas em uma análise mais criteriosa, o pé rapado segue sendo um perdedor.

O sujeito de classe média, com alguma bala na agulha no que diz respeito ao poder de consumo e que, mesmo assim, opta por consumir cada vez menos, acaba recebendo invariavelmente o rótulo de mão de vaca. E isso é notoriamente compreensível, porque não é possível ao homo-consumista imaginar que alguém, podendo, não compre, seja lá o que for. Isso é uma contravenção que deve ser tratada como fraqueza.

Negar o consumo é sacrilégio justamente porque consumir é ato sagrado. Frei Betto já descreveu com precisão os Shopping Centers como os novos templos da religião universal que abraçamos. O altar é o caixa, o sacrifício é oferecido nas máquinas de cartão de crédito, e a bênção recebida é o novo objeto de consumo que trazemos em mãos. Testemunho de fé é ostentar o produto adquirido da melhor forma possível, como, por exemplo, publicando no Facebook uma foto daquele prato de comida de um bar ou restaurante sofisticado.

Construir casas para desabrigados é atitude louvável e quem dera fosse repetida por muita gente mundo afora, mas o indivíduo que sonha com um mundo melhor e se debruça sobre as possibilidades de construí-lo disposto a calejar as mãos, deveria pensar na possibilidade de agir, desde já, de forma que um mundo assim seja minimamente viável. Um mundo melhor depende de um contingente maior de pessoas que, podendo consumir razoavelmente, optem por consumir menos. Não com o olhar penoso, sofrido e angustiado da criança que não pode comer os doces que estão sobre a mesa, mas com o olhar sereno, leve e satisfeito de quem está plenamente saciado com as acerolas do jardim e para quem os doces, de fato, não fazem a menor falta.


Retirado do site atrilha.blogspot.com
Autor: Tuco Egg

Friday, December 11, 2015

Memórias nostálgicas de um boêmio

O passado assombra feito sombra
É imagem que se congela, prisão.
Reprise dos prazeres que já vivi.

Momentos felizes,
Aparentam perfeitos,
Mas não foram
E já se foram.
Lido com isso

Trago no peito as marcas do que amei
Trago na alma os sonhos que sonhei
Mais um trago por favor,
Digo ao garçom

Mas nem a bebida apaga,
Veja o preço que se paga,
Por avançar numa direção inusitada
Por andar sem rumo na estrada

Assim é: a vida se renova,
Ela vai... e você com ela
Ou vai por bem ou por mal
E não há mal nenhum,
Em se agarrar a algo

Mas saiba que é efêmero
Que não vai durar, e ainda assim,
Nós vamos continuar

De cabeça erguida
E coração aberto

Friday, November 13, 2015

Suicídio: Um lapso na teoria da seleção natural?

Nesse texto irei trazer a tona um questionamento: É possível falar sobre suicídio a partir do ponto de vista biologicista? O suicídio parece contrariar a ideia de que todo organismo busca se manter vivo, e é exatamente por isso que ele pode ser um lapso nos fundamentos de nossa Biologia.
   
A parte da ciência que cuida da saúde humana, desde suas origens, ou pelo menos há um bom tempo é fundamentada na biologia, no nosso corpo palpável e material. E nossa biologia é fundamentada por uma importante teoria inaugurada por Charles Darwin em 1859, a teoria Evolucionista. A teoria evolucionista por sua vez é fundamentada pela Seleção Natural. Acredito que o leitor já esteja familiarizado com a Seleção Natural, mas irei fazer uma breve descrição de seu funcionamento. A Seleção Natural é a sobrevivência do mais forte, ou seja, a sobrevivência daquele indivíduo que está mais adaptado ao ambiente. No decorrer da historia terrestre mutações na reprodução do DNA foram e são comuns em todas as espécies, sendo que a maior parte dessas mutações é inútil, elas acabam não se repetindo. Entretanto algumas mutações se adaptam melhor ao ambiente do que o indivíduo original da espécie, e assim os indivíduos com a mutação tendem a sobreviver mais do que o indivíduo original da espécie. Com o passar de muitos anos a tendência é que os indivíduos com a mutação (traço) que se adaptou bem ao ambiente se tornem a maioria, e assim, dizemos que ocorreu a evolução da espécie. Portanto a Seleção Natural é o fato de que o ambiente selecionou os mais adaptados. Para ilustrar isso, um exemplo famoso é o surgimento do Urso Polar. Há indícios de que numa certa feita um urso pardo nasceu com a seguinte característica anômala: pelos brancos. Por um acaso significativo esse urso habitava o ártico, e por ter o pelo branco, conseguia se camuflar melhor na neve, surpreendendo suas presas no gelo e obtendo ampla vantagem sobre os outros ursos. Esse urso sobreviveu, cresceu e se reproduziu passando seus genes pra uma série de outros ursos que continuaram obtendo vantagem sobre os ursos pardos, e acabaram por se tornar a maioria no ártico, já que estão mais adaptados ao ambiente.     

Dentre as correntes da Psicologia, existe uma que se alinhou mais com a ideia da seleção natural, e com a Biologia: o Behaviorismo. No Behaviorismo o comportamento dos seres humanos e também das outras espécies de animais é analisado de forma semelhante à seleção natural, Os comportamentos que se adaptam mais ao ambiente são selecionados durante a vida de um indivíduo. Os comportamentos que resultam em comida, água, sexo e segurança são reforçados e tendem a se repetir. É a teoria do reforço. É assim que se faz por exemplo o adestramento de animais: cada comportamento adequado do cão é reforçado com um petisco. Como explicar então o fato de que indivíduos apresentem comportamentos completamente inadaptados à sociedade e nocivos para si mesmos? Eis a questão, quando levamos em consideração que somos seres que vivem numa sociedade a coisa se torna bem mais complexa. No entanto, ainda é possível responder essa pergunta através da teoria do reforço que estávamos falando. Os comportamentos auto-nocivos se explicam pelo fato de que na sociedade humana o ambiente se modifica rápido demais, logo, o que chamamos de comportamento nocivo foi um dia útil para nós mesmos ou para nossos antepassados da antiguidade ou da era primitiva. Por exemplo, o instinto de se agrupar e odiar os inimigos foi muito útil numa época da humanidade que os recursos eram limitados, e os seres humanos precisavam competir, no entanto tal comportamento é hoje a causa das guerras e de grande parte das mazelas da humanidade. O mundo mudou, o ambiente mudou, mas ainda estamos condicionados pela nossa experiência pessoal ou pela experiência da espécie a agir do modo antigo. Ok, a teoria parece totalmente coesa até ai, até que encontramos um lapso, algo que pra mim ainda está inexplicado: O Suicídio. O comportamento de se suicidar é contrário a ideia de sobreviver, procriar e se adaptar. Os únicos animais que se suicidam são os sociais! Sim, apesar de que não dá pra dizer exatamente que um chimpanzé se matou, no sentido literal, existem casos de chimpanzés que após a morte de um ente da "família" se tornaram deprimidos e ficaram displicentes com a alimentação e com os perigos até chegar ao ponto de morrer. Sendo assim me parece que o suicídio é algo do campo do social, e da dor de ter noção da própria existência ( algo que só está presente nos mamíferos superiores creio eu). Talvez não haja como explicar o suicídio do ponto de vista biológico: é uma morte antecipada. Se o leitor tiver uma opinião contrária ou uma explicação para isso, por favor, deixe um comentário, quero saber o que você pensa sobre o assunto. 

Thursday, October 29, 2015

Não podia ver

Como quem não quer nada...
Jeito estranho de viver... Como quem "num" quer nada.
Pode até soar depressivo, acabrunhado, escorregadio.
Mas como louco dos bão, proponho, vamos colocar o mundo ao contrário:

Porque é que o desejo, esse menino mal-criado, é que manda no mundo?
Tudo que ele vê, ele pede, num pode vê uma vitrine.
Num pode vê uma comida, num pode vê um rabo-de-saia.
Num pode ver.
Num é a toa que Édipo, aquele cabra grego, furou os próprio zóio.
Num podia ver...

Saturday, September 26, 2015

Carta de Christopher MaCandless pra Ron Franz

“Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: você deveria promover uma mudança radical em seu estilo de vida e fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.
Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito do homem que um futuro seguro.
A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências […]
Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo ou em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de vida não-convencional.
O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é com você mesmo […]
Espero que na próxima vez que eu o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça. Você ficará muito, muito contente por ter feito.”



Wednesday, September 16, 2015

Informação, Conhecimento e Sabedoria (2)

Parece simples diferenciar as palavras informação, conhecimento e sabedoria, entre si. Informação é dar ou receber uma notícia, acreditando piamente no que se ouve, fundando-se apenas em boatos. É um parecer entregue de maneira infundada. Conhecimento, ao contrário, é a competência em relação a um fato ou assunto. É ter experiência para dar uma informação ou notícia, ou mesmo para instruir. Sabedoria resume-se na combinação de conhecimento fundamentado com a quantidade certa de informações.

No entanto as definições acima descritas são dicionarianas e aquém da realidade entre elas. Tentei criar uma história alegórica para compreendermos sobre a diferença. Imaginem um dia nublado, com nuvens carregadas e um vento bem refrescante. Você está saindo do trabalho para almoçar, quando percebe o tempo fechado e o vento. Mas existem tantos prédios ao redor, a cidade é grande e isso dificulta saber se aquilo são nuvens de chuva ou poluição mesmo. Você pega nas mãos da loira de olhos azuis e corpo deslumbrante que você costumeiramente chama de esposa e enquanto caminha, sente um pingo, depois outro e depois de alguns segundos, mais um. Você acaba de receber alguns dados, mas sem nenhuma certeza se é ou não chuva; pode ser, por exemplo, pingos de um ar condicionado. No momento em que você olha para o céu e repara que aquelas nuvens não são provenientes da poluição, e começa então a perceber relâmpagos e sentir mais pingos, você recebe muitos dados que complementam uma informação: vai chover. O conhecimento é quando você percebe que com chuva você vai se molhar e consequentemente pode chegar ao trabalho e levar um esporro do chefe por conta disso ou, no mínimo, uma gripe como resultado provável. Isso é um conhecimento. Então você precisa tomar a decisão: corro desesperadamente no meio da chuva ou espero pacientemente a chuva minguar sob uma marquise. Sabedoria é levar tudo isso em consideração, sair na chuva, divertir-se com sua amada enquanto encharca-se com a fria chuva e depois chegar em casa e fazer amor com ela enquanto se banham por que é sábado e você não trabalha hoje. Ou seja, sabedoria é tomar a decisão certa, de maneira que haja uma harmonia entre informação e conhecimento. Na verdade, sabedoria é algo muito mais profundo.

Com todas as informações até agora, temos um pequeno conhecimento da diferença entre os termos - informação, conhecimento e sabedoria - e da importância no nosso dia a dia. Vamos partir, então, para uma visão mais profunda do assunto. Como já abordado anteriormente, estamos em uma era onde somos bombardeados absurdamente por informações: é a era da conectividade, das redes sociais, das notícias em tempo real.  Se um homem adulto por sua natureza não tem capacidade para receber e filtrar as informações de maneira adequada, imagina então uma criança ou um adolescente, ou mesmo um jovem que recebe ainda mais informações devido aos seus estudos. Obviamente, o corpo humano tem um mecanismo que permite que certos assuntos sejam assimilados muito mais facilmente por crianças e adolescentes do que por adultos, como por exemplo, as figuras de linguagem, comumente ensinadas a partir do sexto ano do ensino fundamental e da mesma maneira, isso ocorre com adultos em diferentes áreas. Ainda tem dúvidas se é fato esse excesso de informação?
Eis alguns exemplos:

- Mais de 1.000 novos títulos de livros são editados por dia em todo o mundo; 
- Uma só edição do jornal americano The New York Times contém mais informações do que uma pessoa comum recebia durante toda a sua vida há 200 anos.
- Atualmente existem mais de quatro bilhões de páginas disponíveis na Internet; 
- Estão em circulação mais de 100 mil revistas científicas no planeta;
- Mais de 3 bilhões de pessoas usando a internet no mundo;
- Quase 1 bilhão de websites;
- O facebook tem quase 1.5 bilhões de usuários, e o twitter, mais de 329 milhões de usuários.
(Esse site é impressionante, e nos mostra os números em tempo real: http://www.internetlivestats.com/).

Mas o cerne da questão é o que acontece com todo esse excesso de informação: segundo o psicólogo David Lewis, "o excesso de informação paralisa a capacidade analítica e aumenta dúvidas e ansiedades; ainda, descreve que a sobrecarga de informações pode gerar estresse, tensão, distúrbios de sono, problemas digestivos, dificuldade de memorização e irritabilidade. Quando se analisa então a passividade do homem diante da tecnologia atual, como por exemplo a internet, verifica-se que a mesma torna as pessoas ansiosas, estressadas, superficiais e com uma visão analítica pobre em relação aos impactos agregados ao seu uso." E na era da informação, assiste-se a um novo tipo de ansiedade também, a ansiedade pela informação.   
(O texto completo encontra-se aqui - http://www.ufrgs.br/psicoeduc/ed23/2012/06/16/sindrome-do-excesso-de-informacao/). 

Se conseguimos ter o equilíbrio mesmo frente ao grande número de informações que recebemos, como então transformar tudo isso em um bom conhecimento? 
Precismos filtrar, ou seja, refletir sobre o que lemos, ouvimos e até assistirmos. Se conseguirmos tornar então, essa informação útil e aplicá-las a realidade, então poderemos adquirir essa informação para posteriormente transformá-la em conhecimento. Caso contrário, nem vale a pena adquirir essa informação. A busca, seleção e leitura de informações deve ser precedida pelo estabelecimento de objetivos bem definidos. 
Elaborei algumas perguntas que certamente os auxiliarão nesse objetivo: 
- Por que eu estou lendo este texto? 
- Para que servirão estas informações?
- Qual o significado dessas informações no meu contexto de vida ou profissional? 
- Como e com o que posso associar estas informações de forma a compreendê-las com mais profundidade? 
- Como posso dar aplicabilidade prática a estas informações?

No mínimo, as respostas a essas perguntas nos ajudariam a organizar nosso tempo e nosso processo de aprendizagem. Mas também poderá ajudar a dar a noção de sentido e prioridade ao que fazemos, de forma que, certamente, passaremos a rever a quantidade e a qualidade das informações que processamos. A leitura de qualquer tipo de informação deve ser sucedida por um período de reflexão quanto ao significado do material lido. O processo de reflexão exige análise, associação, contextualização e síntese, de forma que ele pode proporcionar não só a criação de conhecimento original, como também auxilia o processo de fixação mnemônica do conteúdo. Sem isso, teremos a sensação de estarmos “absorvendo” muito, mas na verdade, estaremos aprendendo pouco. 

Agora que estamos munidos de informações suficientes sobre o tema, e conseguimos transformar tudo isso em algum conhecimento útil, vamos a última parte da dissertação: como transformar o conhecimento em sabedoria? Sabedoria é intimamente ligada ao conhecimento? Como obter sabedoria?

Respostas no próximo - e útimo - texto da série.
Senão ficaremos com um excesso de informação.
Hahaha. 

André Reis

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André Reis é aficionado por cinema, baterista por terapia, ama rock and roll por que é inteligente, ainda não é casado por que é meio lerdo mesmo, tem tesão por literatura, adora comer, faz academia de vez em quando e gosta de caminhadas. Ama a natureza, quer ser aventureiro mas não tem muito tempo de sobra, tem poucos amigos, e trabalha por que é pobre. Sonha em ser cineasta, diretor de arte e fotografia e casar-se com a Emma Watson. Na vida real tem mais dúvidas do que certeza, mas tem uma Certeza que é maior do que qualquer dúvida. 



Thursday, September 10, 2015

Individuação e Individualismo no mundo contemporâneo

O mundo de hoje é mais caótico que antigamente?  

Todos nós já ouvimos falar que o mundo está ficando cada vez mais individualista e caótico, que estamos cada vez mais egoístas, e que em decorrência disso estamos tendo a maior "epidemia" de transtornos mentais jamais vista em outros períodos. As estatísticas da depressão aumentam a cada ano. No Brasil por exemplo, estima-se que 10% da população sofra de depressão. Vamos analisar cautelosamente essas afirmações, e ver se são verdadeiras. Para isto, usarei um conceito particular do que é saúde mental, o conceito de Individuação, que explicarei melhor mais adiante, e foi proposto pelo autor que já venho trabalhando em outros textos, C.G. Jung. Sendo individuação o conceito de saúde que usaremos nesse texto, o conceito de individualismo será usado exatamente na direção contrária da individuação, será tratado como fator adoecedor. E para falar de individualismo, trarei três autores, que em minha opinião conseguiram captar bem o rumo da humanidade na contemporaneidade: Zygmunt Bauman, Jiddu Krishnamurti e Leandro Karnal ( brilhante historiador brasileiro).  

Qual a diferença entre Individuação e individualismo? 

O conceito junguiano de Individuação se diferencia radicalmente do individualismo, uma vez que a individuação é um processo que conduz a pessoa a se tornar singular, e o individualismo conduz a pessoa a se tornar egoísta. Que é ser singular? É se diferenciar da massa, é encontrar seu caminho pessoal, sua essência, independente do que as pessoas esperam de você, independente do que o mercado espera de você, independente do que seus pais esperam/esperavam de você. Individuação é aproximadamente o que Carl Rogers chamaria de tornar-se pessoa. É responder a pergunta básica de J.Lacan: " Che vuoi?" ( O que você quer?) O que você quer de verdade? 
"Nascemos originais e morremos copias" (C.G Jung). Nessa frase marcante, Jung coloca a individuação como uma tarefa que a humanidade não tem conseguido levar a cabo. Continuamos morrendo cópias, todos os dias. Seguimos o programa social que já estava determinado para nós, e esquecemos de olhar o que realmente é importante para nossa alma. 

O individualismo tem contribuído para que continuemos evitando a individuação. O individualismo é precisamente o que tem impedido a individuação, ele é o operador da mesmice, e para explicar isso, é preciso entender como funcionam os relacionamento no mundo de hoje. E quem tem falado sobre isso é o sociólogo Zygmunt Bauman, que vê as relações humanas cada vez mais descartáveis e líquidas. Bauman cita as “Amizades de Facebook”, que podem ser facilmente iniciadas e facilmente encerradas. Para manejar essas amizades, basta escolher conectar, e quando se quiser encerra-las basta escolher desconectar, lidar com essas relações não requer um compromisso duradouro. Na verdade, nem sequer há uma relação afetiva nesses casos, há apenas uma relação de troca momentânea (busca-se sexo, negócios, informação, auto-afirmação). Estamos cada vez mais distantes do outro. E o pior, distantes do outro que está bem ao nosso lado. Para o historiador Leandro Karnal, o individualismo de hoje beira ao autismo. E para demonstrar isso de forma bem humorada ele propõe um "experimento" do dia-a-dia. Ele diz que se qualquer um de nós chegar em casa a noite após o trabalho e disser à alguém: "estou cansado", na maioria dos casos irá ouvir: " Eu também". Ninguém irá perguntar porque você está cansado. Aliás, nossos diálogos tem sido muito assim. Cada um falando de si. Uma mulher chega e diz: " Meu filho está fazendo direito", ao que sua amiga responde: "O meu está fazendo Medicina". A noção de que existe um outro está se perdendo. Isso porque estamos demasiadamente engajados em "nossos projetos de vida". O que dificilmente nos damos conta é que esses projetos de vida não são nossos... são programas que determinaram para nós, e inclusive nos fizeram deseja-lo, como um jovem cujo objetivo único é ter um alto cargo numa empresa, mas prefere não lembrar da insônia que isso pode causar. É nesse sentido que o educador indiano Krishnamurti dizia que a mente humana está abarrotada do Vir-a-ser. Estamos sempre tentando vir a ser algo diferente do que somos, sempre querendo alcançar uma posição maior e mais privilegiada na sociedade. Quando todos desejam as mesmas coisas, podemos suspeitar da singularidade desses desejos. Quando um adolescente sonha em ir pra Disney, é bem provável que esse sonho "foi colocado" lá em sua mente por alguém, provavelmente não é um sonho original. E a prova disso é que quando alcançamos o momento tão sonhado, estamos mais preocupados em tirar fotos para postar no Facebook do que em aproveitar o momento.   

Voltemos a hipótese central desse texto, a de que o individualismo tem bloqueado o processo de individuação e singularização. vamos examinar isto. Vimos dois fatores que apoiam essa hipótese: 
1 - As relações líquidas 
Primeiro fator, o fato de as relações estarem mais líquidas no mundo individualista, é extremamente danoso para a individuação, pois esta depende de relacionamentos profundos. Uma das melhores maneiras de conhecer a si mesmo, é através do espelho da relação com o outro. 

2 - Os programas de vida "prato-feito" aos quais estamos sendo condicionados. 

Esse segundo fator é bastante óbvio. Estamos tão bitolados em cumprir os nossos objetivos na carreira e na vida social, que nos afastamos totalmente da meta da alma, a individuação. Chamo esses programas de vida de prato-feito, porque apesar de termos a impressão de que eles são bastantes pessoais, eles são iguais aos das outras pessoas. 

Conclusão: Como quebrar essa corrente? 

Essa é uma pergunta que cada um responde por si, cada um traz as soluções que lhe são possíveis. Não existe uma fórmula, mas se estamos realmente convencidos das mazelas do individualismo, achar-se-a uma maneira. Ou, se não estamos convencidos disso, podemos continuar com ele. Os textos onde compartilho meus pensamentos com o leitor são apenas hipóteses, esboços, não há nada conclusivo, nem mesmo o parágrafo de conclusão. Contudo, se me permite sugerir um bom lugar para começar a quebrar essa corrente, pode-se começar pela escuta, ouvir o outro. É um bom começo.

Apesar de todas as calamidades demonstradas, em todo esse texto não há evidencia de que o mundo está mais caótico do que antigamente. Criamos problemas para o mundo,  mas também conseguimos resolver alguns dos problemas de antigamente. É hora de colocar os ganhos e perdas na balança para avaliar o mundo que nos cerca.