Friday, September 4, 2015

Psicologia analítica, Fascinação pelo oriente e Meditação

Desde muito cedo C.G. Jung se interessou pelo tema da religião em toda sua amplitude, e sua obra constitui além de uma importante teoria psicológica (a psicologia analítica), um verdadeiro tratado sobre a religião. E foi exatamente por esse motivo, que desde que eu ouvi falar em Jung pela primeira vez esse autor me interessou bastante. Em especial, devido a audaciosa proposta de Jung de abranger o total da religião, e de identificar os aspectos psicológicos que estão ali presentes. E para esta tarefa, a premissa de um Inconsciente Coletivo caiu como uma luva. Sendo a religião a expressão de uma coletividade, a ideia de Jung é a de que ao analisar uma obra religiosa, ele estaria analisando também a estrutura da mente das pessoas, uma vez que existem registros que se repetem no inconsciente de pessoas diferentes nas mais diversas culturas. Esses registros se repetem porque se assentam em arquétipos, que são, por assim dizer, fôrmas nas quais se estruturam o Inconsciente. Como a ideia de redenção, de herói, de Deus Pai, de Mãe Natureza, de Extraterrestres, etc. 

A partir da ideia de que existem essas fôrmas, os arquétipos, Jung parte para se aprofundar no que seria sua grande fascinação: A Religião oriental. E é exatamente por esta fascinação, que trago aqui uma auto-análise da relevância deste tema para mim enquanto pessoa. Minhas reflexões e conclusões são semelhantes as que Jung chega a partir dessa investigação. Os princípios da não-violência, do deixar fluir, e o buscar respostas dentro de mim mesmo são características da religião oriental que já há alguns anos tem orientado minhas ações. Não só para Jung, como para muitos outros autores, a diferença entre Ocidente e Oriente está em uma diferença de atitude: extroversão x introversão. O Ocidente se orienta pelo mundo exterior, e o Oriente pelo mundo interior. Dito bem resumidamente, é isto. Sendo Jung um psicoterapeuta, e como tal, valorizava o "olhar para dentro", ele sempre reconheceu o valor do Oriente, e até mesmo sua superioridade espiritual em relação ao Ocidente. No entanto, após uma viagem para a Índía, têm-se a impressão de que Jung toma outro rumo em suas ideias, e é exatamente essa reviravolta que tem importância para mim nesse momento. Jung volta da India dizendo que há muita coisa que o Ocidente deve aprender com o Oriente, mas que não deve imita-lo. Ele aconselha o homem ocidental a buscar sua própria via espiritual, dizendo que há uma diferença estrutural entre o homem ocidental e oriental. Estaria Jung abolindo tudo que ele havia dito anteriormente? 

A resposta é não. Ele não estava abolindo, mas aprofundando. A única questão que ele de fato mudara de opinião era a respeito do homem ocidental "comum" se apropriar da religião oriental. Muitas vezes isso se dá de forma neurótica. Sendo a pessoa ocidental voltada para o exterior, o perigo que se tem, é o de ela tentar repetir apenas a exterioridade das práticas orientais. Esse risco é alto, por mais que a pessoa pense que está indo na essência do que é oriental, toda sua cultura e suas raízes estão fincados no ocidente, e isto tem de ser respeitado. O fato é que a globalização aproximou culturas muito diferentes, e agora temos de lidar com isto. Nesse processo de miscigenação, temos alguns resultados bastante interessantes como a Yoga por exemplo, que encontrou expressão significativa na pessoa ocidental. Mas a maioria das práticas orientais ainda não foi circunscrita pela cultura ocidental. Escolher correr o risco de estar se auto-enganando, é uma questão individual, que o ocidental que pretende mergulhar no Oriente abraça. Mas o que Jung nos ensina após essa reviravolta no seu pensamento é que as riquezas que o Oriente encontrou lá no fundo da alma humana, nós ocidentais também podemos encontrar ao nosso modo. Aprendemos com eles, mas não precisamos imita-los. O que é meditação? O que é equilibrar o Yin e o Yang? Precisamos seguir uma tradição oriental para fazermos isso? ou podemos fazê-lo simplesmente ouvindo uma boa música, indo a uma sessão de psicanálise, vendo o pôr-do-sol no mar, ou através de uma caminhada no parque?         

Informação, Conhecimento e Sabedoria (1)

"Onde está a sabedoria que nós perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que nós perdemos na informação?" Thomas Stearns Elliot

O pensamento acima pertence a um escritor extraordinário - já vencedor do premio Nobel de literatura - cuja obra é conhecida pela fusão de formas tradicionais com elementos experimentais em uma inovadora síntese capaz de inebriar os mais diferentes leitores com sua concepção tão multifacetada, por exemplo, com o livro A Terra Devastada (1922), considerado uma das principais obras da literatura moderna; há inumares representações ricas, complexas e ao mesmo tempo, inequívocas; Para T.S. Elliot, a literatura representava uma maneira única de se opor a ausência de sensações.

Vivemos em uma era onde a atualização tornou-se imprescindível e mais do que isso, o acesso a informação tornou-se absolutamente fácil, com uma produção que cresce exponencialmente a cada dia. Nunca na história da humanidade houve tamanho acesso - e produção - de informação. O que acontece hoje é que as pessoas confundem informação com conhecimento.

E confundem conhecimento, com sabedoria.

Por isso, me impressiona o pensamento descrito no título, de um escritor morto a quase 60 anos. Informação não é conhecimento, e conhecimento não é sabedoria. Sabemos que temos acesso a mais informações do que em qualquer momento da história humana. Temos habilidade de encontrar qualquer resposta factual simplesmente ao digitar uma pergunta na internet. A velocidade com que temos acesso as informações é algo que devemos ter em mente enquanto vivemos nossa vida, enquanto gastamos o tempo que nos é dado.

Explico:

Quando a calculadora eletrônica foi inventada, muitos reclamaram que os filhos não aprenderiam matemática e que a próxima geração de físicos estava fadada a não existir. Hoje, as pessoas reclamam que não sem lembram mais de números, endereços, fatos. Existe alguma verdade nisso, obviamente. Se houve alguma perda para a humanidade - o que parece verídico - não argumentarei contra. Mas há benefícios, logicamente, apesar de mudar a visão de quem somos. Há uns 150 anos, quando o telégrafo surgiu, muitos afirmaram que aquela tecnologia aniquilaria o tempo e o espaço e criaria uma comunidade global, assim como a internet agora. Por isso, é importante que saibamos que nossos ancestrais também ficaram atônicos com as tecnologias que surgiram em sua época, mesmo quanto estamos maravilhados com as ultimas tecnologias.

Outro bom exemplo: O projeto Genoma é um esforço científico que tem amealhado conhecimento com maior velocidade do que nossas mentes podem processar. Esse esforço global para mapear e sequenciar todos os genes (entre 20 e 25 mil) do corpo humano pressagiam implicações para o tratamento e a prevenção de doenças. Contudo, com o surgimento de tais informações somos confrontados com questões de bioética que surgem mais rapidamente do que suas respostas.

Não conseguimos filtrar a esmagadora parte dessas informações. E não há problema nisso. A questão aqui é que o excesso de informação pode ser tão ruim quanto a ignorância. Há alguns meses uma pesquisa - conduzida pela conhecida Universidade da Califórnia, em San Diego - revelou que os americanos consomem quase 35 GB de informações por dia. A mesma pesquisa revela que os americanos consomem informações durante ao menos 12 horas por dia. Nota-se com isso, um lado adverso onde as pessoas se tornam dependentes de informação. E enquanto buscamos conhecimento útil, podemos se perder em uma cegante nevasca de dados. Por exemplo, enquanto procuramos informações e conhecimentos através de um buscador - Google por exemplo - podemos nos deparar com pornografia, desinformação e todo tipo de má instruções.

""Salomão era um homem com rico - era um rei - com um harém com as mulheres mais lindas imagináveis, tinha tudo do melhor, tudo que queria estava ao seu alcance. O mesmo rei escreveu o seguinte:

"13 Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento. 14 Porque melhor é a sua mercadoria do que a mercadoria de prata, e a sua renda do que o ouro mais fino.15 Mais preciosa é do que os rubins; e tudo o que podes desejar não se pode comparar a ela."  Provérbios 3:13-15

Em seu livro, através de provérbios e parábolas, Salomão nos conduz além daquele lema tão comum de que "sabedoria é a experiente arte de utilizar o conhecimento para atingir um objetivo desejado."" (*1) A incontrastável complexidade da mente humana, que não pode ser completamente descrita sequer por ela mesma, pode, no entanto ser resumida a apenas três palavras: Informação, conhecimento e sabedoria.

É muto difícil explicar o que é sabedoria, pois algumas respostas e ações podem levar a qualquer um a ser tido como um ser de grande sabedoria, basta percebemos o que Deus ao perguntar a Salomão o que ele gostaria de receber por suas obras, respondeu de imediato o que queria - sabedoria - e se transformou no homem mais rico da história.

No próximo texto, meditaremos um pouco sobre a diferença entre Informação, Conhecimento e Sabedoria.

Até breve,
André


(1) - Mart de Heerman - Pensando Sobre, pág. 75




Thursday, August 6, 2015

Porque vegetarianismo? Prós e contras

Apesar de eu ser declaradamente vegetariano, tentarei fazer jus ao nome do blog, e apresentar os paradoxos do vegetarianismo, bem como seus prós e contras.

Vou começar com os contras...
Argumentos em favor do consumo de carne

Um argumento comum, e que pretende invalidar o vegetarianismo é: bem, pra começo de conversa os animais carnívoros existem! Leões, Tigres, Onças, Crocodilos, Aves de rapina e a maior parte dos tubarões são animais estritamente carnívoros. A vida para eles só é possível porque se alimentam da carne de outros animais. Isto faz com que a cadeia alimentar seja algo de natural, brutal, violenta, mas que é assim, não cabe ao ser humano interferir, a morte faz parte do processo.

Argumento número dois: " E as plantas, vocês vegetarianos não as consideram vivas? Não é igualmente errado comê-las?". De fato as plantas são seres vivos, que nascem, crescem e morrem. É verdade que não há indícios de que elas sentem dor, mas há um certo "comportamento" das plantas que demonstra sua luta pela sobrevivência, como buscar a luz ou crescer a procura de nutrientes no solo. E além do mais para que servem os espinhos dos vegetais senão para se defender?

O terceiro argumento que eu enquanto vegetariano mais escuto é: "A carne é rica em nutrientes, o corpo pede a carne." Em relação a esse argumento, eu diria que ele é uma meia-verdade. De fato os alimentos de origem animal são as melhores fontes de proteína por exemplo, uma vez que eles oferecem a proteína completa ( com seus 8 aminoácidos), mas não significa que sejam as únicas fontes.

Para finalizar a defesa do carnívoro, poderíamos dizer que a vida merece ser vivida com prazer. E o comer carne seria uma prática hedonista de alto valor gastronômico, e que é tolice abrir mão desse prazer. A gastronomia em primeiro lugar. Nesse ponto de vista, ser vegetariano é se limitar, é restringir sua alimentação e suas possibilidades de aproveitar a vida.

Agora que já tive a decência de apresentar o lado onívoro, introduzirei um pouco sobre o vegetarianismo, para que o leitor possa entender o que se passa na mente de um vegetariano.

Os vegetarianos costumam dizer que há dois motivos para pessoas continuarem comendo carne: 1 - Prazer; 2 - Cultura. O ser humano evoluiu comendo carne, isto se tornou além de algo natural, um hábito enraizado profundamente na cultura. Apesar disso, nas últimas décadas, cada vez mais pessoas vêm se tornando vegetarianas, porque? Freud explica: com o avanço da civilização, o instinto tende a ser controlado, e sublimado para outras atividades. É exatamente isso que está acontecendo. A violência típica da vida selvagem, não é permitida na civilização. No mundo animal há estupro, escravidão, assassinato, canibalismo, parasitismo e predadorismo. Mas o código de ética do ser humano deve se basear no comportamento selvagem?

Argumentos em favor do vegetarianismo


Primeiro argumento: futuramente explorar e matar um animal inocente será crime. Lutar pelo fim dos abatedouros é como ser o abolicionista da época da escravidão. Vou resumir a vida desses escravos para o leitor: Apesar de serem seres com emoções complexas (já que a palavra animal pode significar dotado de anima/alma), esses escravos são vistos como coisas. Eles já nascem com a data marcada para morrer. Neles são injetados hormônios para crescerem mais rápido. Muitas vezes são confinados em ambientes pequenos onde eles devem comer muito, e crescer o mais rápido possível. Sofrem maus tratos constantes, já que são meros objetos de consumo. No abatedouro, frequentemente são pendurados de ponta cabeça, enquanto são assassinados em série, e feridos sangram até a morte. Percebe-se aqui não só que o ser humano sente prazer em matar e agredir ( vide caça esportiva), como também que construiu uma indústria em torno disso!

O segundo argumento segue por uma vertente menos emocional e mais lógica. A ecologia.  E isso não sou eu quem digo, é a ONU! A dieta vegetariana reduziria consideravelmente a devastação do homem sobre a natureza: http://portugalmundial.com/2014/03/onu-recomenda-mudanca-global-para-dieta-sem-carne-e-sem-laticinios/

Além disso, é possível demonstrar por A + B, que a dieta vegetariana acabaria com a fome de seres humanos no mundo! Para se produzir 1 Kg de milho, soja ou trigo se gasta dez vezes menos recursos do que para se produzir 1 Kg de carne, além de gastar 20 vezes menos água!! Se o milho, soja e trigo fosse utilizado para alimentar pessoas, ao invés de ser utilizado para alimentar animais que futuramente serão abatidos para alimentar pessoas ( que contradição), certamente não teríamos fome no mundo. 

Por fim, o último argumento é em relação a saúde. Vegetarianismo é não só possível em termos nutricionais ( os vegetais possuem ferro, proteínas, fibras, omega-3, vitaminas, e tudo que o organismo precisa) como também é muito saudável. Essa dieta previne obesidade, diabetes e todos tipos de complicações cardiovasculares. Além do fato de que vegetarianos praticamente não tem colesterol.

Expostos os dois lados da moeda, gostaria de salientar que a discussão entre essas partes, dificilmente chegará à algum lugar. O onívoro não será convencido a se tornar vegetariano através de ataques dos vegans, e nem o vegetariano convicto será levado a comer carne após uma discussão dessas. Mas acho válido aconselhar a quem se interessar, que investigue sobre o tema do vegetarianismo, que pode trazer coisas novas e interessantes.

Também acho importante comentar que alguns argumentos tolos de ambos os lados deixaram de ser trazidos ao longo do texto. Entre eles, o de que é da natureza humana comer carne e assim ele deve permanecer, ou o argumento igualmente tolo de que o ser humano é originalmente vegetariano. Nesse ponto, cabe a célebre frase de Sartre: "Não existe natureza humana, e sim Existência humana".

Friday, July 24, 2015

Relacionamento, Poder e Igualdade

Muitas pessoas falam em mudar o mundo, mas como proceder para isso? O que quer que se queira mudar na qualidade de vida neste planeta, é no que está em seu alcance mais imediato que o indivíduo pode atuar. E o que está à seu alcance são quatro coisas que não se separam: Sua mente, seu corpo, seus relacionamentos e seu ambiente. Nesse texto, falarei mais a respeito dos relacionamentos, por ser, por si só, um assunto muito vasto. Isto não significa que cuidar do corpo, do ambiente e da mente não tenha importância, mas sim que esses quatro fatores trabalham juntos. 
Sabemos que no mundo em que vivemos os relacionamentos são repletos de uma série de mazelas, entre as quais, posso citar, exploração, disputa de poder, inveja, ciúmes, autoritarismo e desigualdade. Estas últimas palavras: "autoritarismo e desigualdade" são o X da questão.
Os seres humanos ao se relacionar uns com os outros estão com frequência tentando se colocar como superiores, impondo sua vontade, fechados para a opinião do outro, e tentando controlar a relação. E tudo isso é mascarado através dos valores e crenças, que distorcem a realidade a tal ponto de a pessoa considerar que uma relação desigual é justa. Vamos examinar mais de perto onde começa esta relação desigual... Sua origem é o autoritarismo. e o autoritarismo começa na família, a principal célula da sociedade. Gostaria de não precisar utilizar o termo da moda: patriarcal, mas esse uso se faz necessário. A família é patriarcal, e isso por si só é gerador de desigualdade. As crianças são educadas para serem como os país, há pouco espaço para elas serem elas mesmas. A curiosidade inocente e alienável das crianças ao se encontrar com uma mistura de autoritarismo e amor, logo se torna condicionamento. Os pais se utilizam dessa poderosa combinação: Castigo e Afeto, eis o método utilizado para despersonalizar as crianças! 
A relação conjugal, por sua vez, também não é menos desigual. As coisas tem mudado, é verdade. A mulher  tem se emancipado, mas a herança patriarcal ainda é grande. O homem, educado para ser o rei, não entende porque a mulher não é mais submissa. E a mulher certamente se vinga desse autoritarismo, através de suas armas mais espinhentas: palavras e frieza. E o que ambos tem em comum? O fato de querer o outro a sua maneira. O outro é percebido como apenas um detalhe. Relaciona-se com a imagem que se criou da pessoa, e não com a pessoa real. No começo essa imagem é idealizada, no período em que os amantes estão sobre efeito da chamada paixão, momento em que projetamos aquilo que nos falta no ser amado. Depois, começa a tragédia... Então, neste ponto, há a percepção de que há algo muito errado com aquela imagem criada?... Nem sempre, o mais comum é ocorrer de a pessoa dizer que ha algo muito errado com o cônjuge real.
Na sexualidade, é onde talvez esse fatos se manifestem com maior intensidade. Há uma objetificação do outro, e uma repercussão clara dessa disputa de poder se faz notar. Sexo é um ato político. Relacionamento é um ato político. Estas são as mais simples formas de revolução. Não é preciso necessariamente pertencer a um partido, não é preciso seguir um líder, não é preciso necessariamente ir às ruas e reunir as massas. Não estou desmerecendo essas formas de protesto, apenas estou afirmando que elas não são as únicas. 
E estou afirmando também que seguir um líder político envolve o risco de cair no velho autoritarismo. A psicologia das massas e a história nos mostram o poder que um líder autoritário tem de convencer pessoas comuns como eu e você à praticar barbáries. Se alguém tem dúvidas disso, confira o polêmico experimento da Psicologia Social de Stanley Milgran (1963): https://www.youtube.com/watch?v=VT3wKbBNo64
Nesse ponto, eu acho importante trazer a diferença entre o ato de liderar e o autoritarismo. Não há mal nenhum em liderar, o problema é quando as lideranças se cristalizam. Por exemplo, quando eu estou ensinando alguém a tocar violão estou liderando a pessoa para que ela aprenda a tocar, mas isso não faz de mim o líder absoluto dela. Isto é pretensão dos sacerdotes. Pretensão letal para a autonomia das pessoas, diga-se de passagem. Portanto, é natural que cada individuo tenha um gosto diferente, e que cada individuo tenha aptidão para algo diferente, o perigo esta quando em uma relação à vontade de um se imponha sobre a do outro e essa relação de poder se cristalize. O mesmo vale para sexualidade, por exemplo. Cada um tem sua posição sexual predileta, o problema é quando num relacionamento amoroso determinada prática que é mais vantajosa para um se cristalize. 
A esta altura do texto, fica perceptível o tamanho do desafio que temos aqui exposto para se chegar até aos relacionamentos de igualdade. Trata-se de encontrar em cada relação o equilíbrio entre as forças que estão em jogo, pretendendo-se uma distribuição igualitária do poder. Isso envolve não aceitar a autoridade, e cuidar também para não ser uma autoridade. Nessa explanação propositalmente não entrei no mérito da desigualdade social, pois acredito firmemente que uma mudança nos relacionamentos interpessoais é uma fortíssima alavanca capaz de engendrar a mudança social mais ampla. Por fim, meus agradecimentos ao livro "Utopia e Paixão" ( Roberto Freire e Fausto Brito), de onde foram retiradas parte dessas idéias.

Wednesday, July 15, 2015

FRASE PARA REFLEXÃO

"Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?"
                                                                                                      T.S. Eliot

Tuesday, July 14, 2015

Parte 01

I

Sabe qual é o problema? As pessoas simplesmente não ligam. Quando não odeiam, simplesmente não ligam, não há uma mínima preocupação com o que acontece ao seu redor. Preferem ser indiferentes em seus próprios entendimentos, em sua própria cobiça. Eu sempre gostei de reparar nas pessoas e é incrivelmente verdadeiro como os rostos das pessoas conversam sem, sequer, uma única palavra. O que é engraçado – e algumas vezes, arrepiante – é observar a reação das pessoas quando uma notícia ruim sobrevém, ou quando uma coisa boa acontece inesperadamente. É intenso observar, por exemplo, uma mulher que acaba de saber de sua gravidez quando o médico já havia lhe dito para conformar-se com seu único filho de treze anos, ou então optar pela adoção. E assim, do nada, o médico diz as boas novas deixando-a inacreditavelmente perplexa. Lagrimas saem naturalmente acompanhando um sorriso assustado e nervoso, que logo dá lugar a uma deliciosa gargalhada e gritos de felicidade, junto com abraços, beijos e afagos. É quase mágico. Amedrontador é observar a reação de um estuprador que, friamente, confessa um crime terrível ocorrido há apenas alguns meses. Ele simplesmente se manifesta, contando detalhes horríveis e sujos que ninguém sabia de sua vida, mas seus olhos exibem uma calma inimaginável. Sua respiração é pautada, tranqüila, como se estivesse contando uma história fictícia, como se ele fosse o mocinho. A sua reação é tão terrível que ele deixa suas emoções fluírem naturalmente, e até esboça um sorrisinho de canto de boca, quando fala nos detalhes e pronuncia palavras como “foder”, “amedrontado”, “fraco”, “indefeso”. Parece estar se divertindo, enquanto as poucas pessoas ao seu redor estão simplesmente petrificadas. Ele não repara, mas um deles está chorando, simplesmente derrubado, dolorido até a alma por escutar sua confissão. Mas o mal continua dentro das pessoas e em muitas vezes, disfarçando-se do bem, do politicamente correto. Meu Deus, quantas vezes eu vi o mal disfarçado de liberdade, de preconceito, de diversidade. Você simplesmente olha as pessoas com muita atenção, bem fixamente nos seus olhos ,e por um instante, você percebe qual a realidade da vida: não há no mundo mal maior do que aquele que jaz dentro de todos os homens. 


Mas eu sou um observador; então eu sempre tentei imaginar a minha reação antes de certos fatos acontecerem. Como um otimista, comecei a imaginar quando determinados fatos simplesmente pousam de uma maneira inesperada em nossas vidas, tocando nosso ponto mais fraco, e todas às vezes eu acreditei que as pessoas – mesmo que fossem unicamente as próximas – reagiriam de uma maneira, no mínimo, com um sentimento de assistência. Mas as pessoas – salvo raras exceções – não querem apenas tocar no seu ponto fraco, observar sua reação e ajudá-lo da maneira que for possível. Elas não querem saber o porquê do ponto fraco ou do nosso comportamento conseqüente. 

Não.

Elas simplesmente não ligam. A indiferença destrói tantos com tanta facilidade quanto o ódio. Quantas vezes, quantas vezes meu Deus! Você faz revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas te olham de maneira esquisita, sem entender nada do que disse que eram tão importantes que você quase chorou quando estava falando. Elas querem martelar isso em você. Querem fazer com que você se sinta culpado, inferior e miserável; e se deleitam quando observam sua autocomiseração. Elas arrastam você para baixo. A verdade é que é muito mais fácil apontar e rir, ou mesmo ser indiferente, do que usar seu tempo com alguém desconhecido. Então o seu segredo fica lá guardado, na escuridão, trancafiado. Não por falta de um narrador. Mas por falta de alguém que compreenda. E eu vivi tão proximamente a essa podridão moral e espiritual das pessoas, mas convivi também com outras que tinham um dom, uma dádiva: Mesmo não compreendendo, elas faziam questão de estar presente, de escutar seus problemas, de amar quem você realmente é, de amar aquela criança indefesa e inocente que nunca deveria ter dado espaço para aquele adulto miserável. Mas, meu Deus, são tão poucas, tão raras, e às vezes as alguns esperam angustiadas, durante uma vida inteira, por pessoas assim. 

(...) Continua.

Sunday, July 12, 2015

O "Livre arbítrio" - Criadores de circunstâncias ou produtos das circunstâncias?

         Há muito tempo que pondero sobre as falácias e dilemas que envolvem teorias que citam o assunto do "Livre arbítrio". Resumidamente e simplificadamente, o livre arbítrio seria a crença de que os seres humanos tem total controle sobre suas ações: a chamada "escolha". Mas há muitos dilemas envolvendo teorias que apoiam esta crença. O primeiro deles é que, empiricamente, se percebe que o ambiente afeta as decisões tomadas pelas pessoas. Pessoas pobres roubam mais, pessoas depressivas e ansiosas tem mais vícios em drogas, pessoas tem reações extremas depois de sofrerem certos "traumas psicológicos". Ou seja, acreditar num livre arbítrio pleno seria ignorar toda a prova empírica observável a qualquer um envolvido na sociedade. Experimentos realizados por nazistas e realizados espontaneamente em presídios também demonstram o quanto o poder de escolha é limitado às experiências e aos ambientes aos quais os seres humanos em questão foram submetidos.

         No entanto, a crença de que as escolhas são totalmente induzidas pelo ambiente ao qual o indivíduo é submetido também encontra diversos problemas. Filósofos existencialistas e psicólogos contemporâneos, como Sartre e Viktor Frankl já perceberam que existe muito mais na escolha realizada por um indivíduo do que meramente o resultado de certas variáveis. Por que determinados indivíduos no campo de concentração de Auschwitz continuaram de cabeça em pé, tentando encontrar um sentido para sua vida, ao invés de desistir, como outros fizeram? Por que gêmeos idênticos, com experiências muito semelhantes de vida, podem fazer escolhas tão distintas? Existe muito debate e nenhuma conclusão acerca desse tema. No entanto, para mim é claro que existem dois "espaços psicológicos" que nos ajudariam a entender melhor esta questão e, talvez, encontrar uma resposta intermediária.

Podemos definir o microespaço como o espaço onde as coisas realmente acontecem: seria como a física quântica. Seria o espaço onde realmente o ambiente e experiências tem grande influência em nossas decisões, e onde outras variáveis indecifráveis até este momento influenciam nas tomadas de decisões. Este espaço é incompreensível em sua totalidade, e além de utilizar evidência empírica como provas estatísticas, ainda não podemos levar seus dados muito a sério.

Já o macroespaço seria como a física newtoniana: ela não é uma definição da realidade; antes, é uma abstração imensa dos fatos, mas funciona para explicar grande parte dos fenômenos materiais matematicamente. O macroespaço seria a tomada de decisão feita pela pessoa, sem levar em consideração fatos anteriores que ela possa ter experimentado que a levaram a escolher por uma ou outra decisão. Seria o espaço da definição do "Eu", e da tomada de responsabilidade. Quem fez essa escolha fui eu, e eu tenho que tomar responsabilidade por isso, arcar com as consequências dessa decisão. Nesse espaço, o ser humano é, sim, criador do seu destino, e o livre arbítrio existe.

E de que serve isso? Todas as crenças religiosas que conheço acreditam em destino, de uma forma ou de outra. Cristianismo e Islamismo nem sempre pregam a predestinação (Apenas algumas linhas de ambas as religiões), mas a mera crença de um Deus onisciente e onipresente pressupõe a crença de um destino pré-fixado. Crenças de origem oriental costumam utilizar valores semelhantes ao Karma ou ao Tao em quase todas as suas formas. O que me diz uma coisa: a humanidade sempre acreditou, de uma forma ou de outra, que suas escolhas não importam. Que existe algo superior que já definiu como as coisas acontecerão, que somos impotentes para moldar nosso destino. De certa forma, linhas behavioristas da psicologia são uma evolução desses pensamentos religiosos para dentro do campo científico.

No entanto, apesar de ter sido uma constante no pensamento religioso e bastante predominante no pensamento científico a impotência do ser humano enquanto criador de seu destino e de suas decisões, sempre existiram pessoas, pensadores, poetas, cientistas, teólogos, em todas as épocas, que acreditaram que o ser humano é, sim, capaz de criar suas decisões. De moldar seu destino. De não ser um produto ou uma criatura das circunstâncias, e sim de ser o criador das circunstâncias. E o mais interessante: este tipo de pensamento esteve, por muitas vezes, inserido na ideologia de pessoas de "sucesso" (Escreverei alguns pensamentos sobre a definição de sucesso num post posterior. Por enquanto, vamos assumir que ser alguém de sucesso é ser alguém que consegue realizar objetivos colocados para si próprio), como Thomas Edison, Leonardo da Vinci, os Médici, Hitler, Gandhi, entre outros. Percebam que não estou colocando exemplos necessariamente de pessoas que fizeram coisas boas, mas que obtiveram sucesso em realizar o que tinham como objetivo.

Portanto, talvez acreditar, dentro do macroespaço psicológico, que sou capaz de tomar minhas próprias decisões e, assim, moldar meu destino, apesar das circunstâncias, pode ser um ingrediente fundamental para completar qualquer objetivo, por mais que, internamente, no microespaço, saibamos que nosso "livre arbítrio" é bastante limitado. Digo TALVEZ, por ser uma reflexão. Digam o que acham =)