Tenho a intenção de trazer nesse texto uma reflexão sobre o
desenvolvimento da sexualidade contemporânea e discutir a veracidade de nossas
crenças a respeito dos impulsos sexuais. Inicialmente a sexualidade é
principalmente tudo que diferencia o que é masculino do que é feminino; estes
dois pares de opostos regem o comportamento dos seres vivos e ambos fazem parte
da vida de qualquer pessoa, independentemente de ser ela biologicamente mulher
ou homem. Impossível falar sobre a sexualidade sem trazer a mente do leitor os
resquícios dos ensinamentos e proibições da igreja católica na idade média e a
revolução causada após a teoria psicanalítica de Sigmund Freud. Durante a era
feudal a sexualidade era mais mito do que nunca, não se falava sobre o que
ocorria entre as quatro paredes de um quarto. Nesses tempos remotos da
humanidade, qualquer prática sexual que não visasse à procriação era
considerada pecado. A única posição permitida era a da mulher deitada de bruços
com o homem sobre ela, pois segundo os missionários essa posição estava de
acordo com os ensinamentos do apóstolo Paulo que diziam que as esposas deveriam
ser submissas aos seus maridos. Nessas circunstâncias de controle ao extremo
das práticas sexuais quem se dava bem era o senhor feudal, que além de ter o
direito de colocar cinto de castidade em sua esposa, podia tomar para si
qualquer mulher do feudo durante a primeira noite do casamento. Outras práticas
que foram completamente abominadas durante estes períodos no Ocidente foram à
homossexualidade e a prostituição. Um fato curioso sobre a prostituição foi que
o Papa Clemente II durante o século XI determinou que as prostitutas devessem
dar metade dos lucros a igreja, ou seja, nota-se um possível interesse por
parte da igreja de manter a sexualidade no nível de tabu. Estão montadas então
as raízes dos tabus sexuais contemporâneos; vamos falar um pouco então do
famoso psiquiatra vienense responsável por desconstruir concepções antigas, mas
também por trazer novos conceitos bastante questionáveis. Sigmund Freud trouxe
ao lado dos seus estudos sobre as neuroses um conceito bastante ampliado de
perversões. Perversão é o investimento sexual fora das normas da civilização,
portanto as perversões variam de uma época para outra. Notadamente para Freud todas
as pessoas têm um grau de perversão, pois para ele a sexualidade tem seus
objetos e alvos sexuais variando durante as diferentes fases do desenvolvimento
da sexualidade. Um exemplo claro disso é que para ele a sexualidade passa por
uma fase oral, uma fase anal e outra genital. Na primeira fase o desejo e o
prazer estão centrados na ingestão de alimentos, no sugar o leite materno, e no
chupar o dedo por exemplo. Na fase anal, a sexualidade está centrada nos
excrementos, ou qualquer coisa que faça alusão às fezes; tanto é que o asco as
fezes só aparece mais tarde devido aos ensinamentos dos pais. E finalmente vem
a fase genital ou fálica onde o centro do prazer passa a ser o órgão genital.
Já o objeto sexual inicialmente sempre é a mãe, mas após certos processos do
desenvolvimento sexual que não cabe elucidar aqui passa a ser no caso das
meninas o pai. É ao pai que uma pequena garota quer agradar na infância; essa
mudança de postura em relação ao objeto de desejo (característico do famoso
complexo de Édipo) demonstra mais uma vez o caráter bissexual dos seres
humanos. Foi assim que Freud chocou a sociedade da época ao trazer a tona
questões como à sexualidade infantil e a uma possível natureza bissexual. Contudo,
nem tudo foram flores na sociedade psicanalítica de Freud, pois ele se mostrou
bastante inflexível com seus discípulos; por isso, famosos discípulos como
Adler e Jung, por exemplo, acabaram tomando outros rumos em seus estudos. E a
queixa era sempre a mesma: a ênfase exacerbada que Sigmund Freud dava nos impulsos
sexuais. Enquanto Freud considerava os impulsos sexuais como fator crucial para
se entender as relações sociais, seu discípulo Alfred Adler, considerava que as
relações sociais é que são fundamentais, e, portanto, são elas que determinam o
comportamento sexual. Em “O mal-estar na civilização” Freud diz que a vida em
sociedade exige do indivíduo o sacrifício de abrir mão de suas pulsões, sobretudo
da agressividade e da sexualidade. Isso nos remete aos gregos que em um dado
ponto do desenvolvimento de sua filosofia, dividiram o corpo em: razão (cabeça),
vontade e sentimento (coração e tronco) e instintos naturais (membros
inferiores). A partir dessa divisão é que a filosofia grega foi convergindo
para o que hoje podemos chamar de cultura ocidental; a parte oriental da cultura
grega foi se dispersando e perdendo forças, sobretudo a parte mística e mitológica. A alma sem duvidas estava mais
associada à razão (cabeça) e, portanto como função superior deveria se firmar sobre
o corpo, que seria comandado pelo que há de mais primitivo no homem. Essas
particularidades do modo de pensar ocidental e também da teoria psicanalítica são
enraizadas de tal maneira na mente humana que dificilmente serão retiradas de lá.
Enfatizo que mesmo discordando da visão ocidental, ela está lá, dentro de cada
um de nós ocidentais. A proposta da psicanálise talvez fosse de desconstruir
concepções, mas ela cai num conflito insolúvel ao querer generalizar a
natureza humana. o que será a natureza humana? O homem é tão versátil que é
absurdamente difícil definir sua natureza, logo esses conceitos sempre devem
ser revistos para um aprimoramento do entendimento sobre o ser humano.
Cara, gostei bastante do texto, ótima introdução ao assunto... Valia a pena escrever mais sobre isso o/
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