Sunday, June 24, 2012

O PODERIO ORGANIZACIONAL


Introdução       

“A história das organizações está intimamente ligada à história da sociedade humana. As organizações não são invenção moderna. Os faraós delas se utilizaram para construir as pirâmides. Os imperadores da China delas se utilizaram, há milhares de anos, para construir grandes sistemas de irrigação. E os primeiros Papas criaram uma igreja universal a fim de servir a uma religião universal “(ETZIONI, 1989). As organizações são um conjunto de indivíduos, que mesmo com suas particularidades, estão ligados por uma missão em comum.
Este trabalho tem como objetivo trazer a historia das organizações desde os seus primórdios, bem como seu desenvolvimento e adequação na atual conjuntura do capitalismo.  No estudo das organizações é sempre importante entender os contextos sócio-culturais em que elas estão inseridas, pois isso é determinante para trazer a tona suas necessidades, direcionamentos e perspectivas. Além de observar a sociedade e seus desdobramentos, este trabalho também traz a estrutura organizacional e as problemáticas modernas nas relações entre os diferentes indivíduos de uma organização; bem como um olhar para questões ainda maiores como a relação do indivíduo com a organização como um todo e o mito moderno das “organizações imortais e perfeitas”. É possível destacar ainda, os movimentos de contracultura que surgem ao longo da historia, como por exemplo, o movimento hippie; e o contexto social atual que tem levantado a questão intercultural nas organizações, devido à pequena distância que existe entre qualquer ponto do globo terrestre hoje em dia com a globalização.

História das organizações

A história das grandes empresas tem início no período de transição que ocorreu a partir da primeira revolução industrial, ocorrida na Inglaterra. Até o século XVIII um produto era produzido, em todas suas etapas, por um único artesão; mas com a invenção da máquina a vapor por James Watt, a indústria começou o seu desenvolvimento. Teve inicio uma ampla divisão de tarefas e o surgimento das maquinas como grande fonte de trabalho; neste período inicial da indústria o trabalhador se encontrava numa situação delicada, pois ainda não contavam com a força dos sindicatos e estava completamente a mercê dos donos do capital. Os trabalhadores eram explorados com jornadas de trabalho gigantescas, remuneração pequena, e nenhuma das vantagens oferecidas atualmente pelas empresas, como plano de saúde por exemplo. Esse modelo que enxerga o funcionário como uma espécie de ferramenta que pode ser facilmente substituída influenciou todo o desenvolvimento da indústria e trouxe implicações que podem ser notadas ainda hoje. Esta influência pode ser notada também em dois modelos importantes que surgiram no início do século XX: o Taylorismo e o Fordismo, que derivam respectivamente dos empreendedores Frederick Taylor e Henry Ford.
Frederick Winslow Taylor (1856 – 1915) valorizou acima de tudo o lucro; no modelo criado por ele o importante era produzir em larga escala e o mais rápido possível; para isso, ele julgou desnecessário que o trabalhador conhecesse todo o processo de produção, ele apenas queria que seus funcionários realizassem com eficiência a etapa do processo que era designada a cada um deles; e era função do gerente planejar a sincronia entre as funções dos operários. Com isso, o trabalho se tornou ainda mais dividido; e o processo criativo do trabalhador estava ameaçado, pois a tendência proposta por Taylor era a da mecanização do trabalhador, que desempenhava na empresa um papel repetitivo e treinado; frustrando muitas vezes a necessidade psicológica do ser humano de se colocar em sua obra; ou seja, a necessidade do trabalhador de inserir sua individualidade na criação do produto. Seguindo uma linha de pensamento semelhante à de Taylor, no começo do século XX, surge o chamado fordismo. A principal novidade implantada por Henry Ford foi à linha de montagem, que acelerou a produção quebrando recordes na quantidade de automóveis produzidos. Na linha de montagem o produto percorre o trajeto de uma esteira e em cada etapa ele recebe o trabalho específico de determinados funcionários; tal modelo é amplamente utilizado atualmente sendo responsável pela produção em massa de diversos produtos. Outras políticas também foram lançadas por Ford, como os bons salários pagos e a política das metas; a gestão extremamente alienatária de Ford objetivava não só produzir trabalhadores qualificados e treinados, mas também produzir consumidores para sua indústria. Essas políticas deram ao indivíduo a oportunidade de crescer na empresa, mas também intensificaram um vinculo que pode ser danoso para o sujeito; a ligação afetiva entre o funcionário e a empresa.
Entre os outros fatores históricos que tiveram contribuições importantes para os rumos tomados pela indústria foram as duas grandes guerras e a crise de 29. No período pós primeira guerra mundial a economia ficou centrada no modelo liberal do EUA; a indústria estadunidense abastecia o mercado europeu e promovia a reconstrução do velho continente. Este modelo tinha influência da idéia de “mão-invisível”, proposta no século XVIII por Adam Smith; este idéia propunha que a economia era capaz de se auto-regular sem a intervenção do estado. Porém, após a reestruturação da Europa os produtos norte-americanos pararam de ser comprados em tão larga escala, e os estoques da empresas estadunidenses começaram a aumentar com a superprodução; este aumento dos produtos em relação à demanda culminou com a quebra da bolsa de valores de New York em 1929, desencadeando a maior crise já enfrentada pelo sistema capitalista. Os índices de desemprego cresceram, a produção diminuiu, e grande parcela dos trabalhadores que continuaram com seus empregos foram obrigados a aceitar redução de salário; este cenário foi decisivo na aparição dos governos totalitários de extrema direita. Os governos totalitários apareceram como solução para muitos países superarem suas crises, e assim figuras como Hitler e Mussolini tiveram a oportunidade de assumir o poder com seus governos nazi-fascistas. Já os EUA, resolveram sua crise com uma série de medidas tomadas pelo presidente Theodore Roosevelt que ficaram conhecidas como New Deal; as medidas consistiam principalmente na retomada de certo controle do estado sobre a economia, sobretudo nos preços e na produção, para evitar um novo acúmulo de estoque. Contudo, a política ofensiva dos países nazi-fascistas acabou levando á um novo desequilíbrio da ordem mundial: a Segunda Guerra Mundial.
Dentre as implicações da segunda guerra está a divisão do mundo em dois grandes blocos econômicos: o bloco liderado pelos Estados Unidos e o bloco liderado pela União Soviética. O crescimento do socialismo apontava para certa fragilização do sistema capitalista, que ao longo dos anos anteriores havia passado por períodos de muita turbulência. Foi nesse contexto que surgiu no Japão o terceiro modelo de gestão; o modelo Toyotista. O modelo toyotista foi uma forma que o Japão encontrou de se reestruturar; o Japão ao contrário dos EUA não possuía grande mercado interno e tinha poucos recursos naturais. O toyotismo se diferenciava do fordismo principalmente por não haver estocagem de produto, tudo era produzido de acordo com a demanda atual de mercado; e, portanto, o produto era finalizado exatamente no momento da entrega; este conceito de produzir somente o necessário é chamado de “Just in time”. Também é característica do toyotismo o multifuncionalização dos funcionários; ao contrário do modelo fordista em que havia uma rígida divisão de tarefas. Para conseguir se estabelecer, o toyotismo foi auxiliado por um amplo investimento em educação feito pelo governo japonês que tornou a mão-de-obra do Japão extremamente qualificada para atender á um dos quesitos fundamentais do toyotismo: a qualidade de seus produtos.

            Crise de identidade e suas implicações

Na atualidade as empresas estão sendo configuradas para atender á necessidade de lançar um olhar para a interculturalidade dentro da empresa e na sociedade em que vivemos; tal interculturalidade originou-se da globalização. A globalização aproximou as diversas culturas do mundo, rompeu com estruturas sociais e permitiu a um cidadão pertencer ao globo terrestre como um todo. O capital ganhou a capacidade de ser facilmente transferido; bem como os profissionais ganharam esta propriedade, e até mesmo as organizações que atualmente tem a capacidade de se transferir por inteiras de uma nação para outra.
Atualmente é possível entrar em contato facilmente com o “diferente”, e até mesmo com o oposto da cultura local; por isso, torna-se necessário que especialistas dêem uma atenção dentro da empresa para o relacionamento entre diferentes funcionários, que necessariamente vêm da inserção em uma cultura, formação moral e/ou religiosa e hábitos. Se por um lado esta diversidade aumenta a qualidade do trabalho, por outro, se não houver diálogo e negociação na empresa estes aspectos podem gerar desentendimento entre os trabalhadores e exclusão. Outra implicação da interculturalidade é a acelerada perda de identidade que o cidadão contemporâneo tem sofrido; os jovens do final do século XX e do século XXI não têm o auxílio das estruturas que organizavam a psique em gerações passadas, como o estado, família e a igreja. Com isso, os indivíduos ganham uma mobilidade maior nos grupos de referência; podendo em certo momento de sua vida pertencer a um grupo e em outro mudar para um grupo diferente. Nesse contexto de falta de uma identidade fixa, as organizações geralmente aparecem como entidade forte capaz de reger e organizar a psique; o funcionário compra a meta e a identidade de sua empresa.   

O ideal imaginário das organizações

Na atual conjuntura da sociedade as organizações estão se estabelecendo no imaginário das pessoas como entidades grandiosas, nobres, perfeitas e capazes de suprir a necessidade humana de completude. O jovem contemporâneo apresenta uma preocupação grande com a perfeição e a busca desenfreada pela verdade e algo que dê sentido a sua vida; esta é sua condição neurótica. Este ambiente é perfeito para que a organização perversa se estabeleça, trazendo a fantasia da organização completa e sem falhas e também favorecendo o consumismo desenfreado, pois os indivíduos contemporâneos estão carregados de uma plenitude insaciável, produto do não reconhecimento das faltas reais do sujeito. O desprazer de se deparar com a incompletude seria tamanho, que membros das organizações e de grupos sociais têm utilizado enfáticos métodos de exclusão para atingir sua superioridade psíquica. É um mecanismo semelhante ao método nazista para atingir sua auto-satisfação; que consiste em subjugar os que estão fora da organização “perfeita”. Os indivíduos que não se adéquam as normas da moda, ou que não tem um bom carro, ou um emprego de status elevado são em geral também subjugados caracterizando a exclusão dos “inadequados”.
Para se sentirem parte desta perfeita organização que está presente no imaginário das pessoas, o indivíduo acaba gastando toda sua energia com o trabalho, que assume uma posição de referência, ultrapassando muitas vezes a família. O plano de metas contribui para dar está determinação do trabalhador em vestir a camisa da empresa, pois à medida que o empregado recebe promoções e premiações, ele se sente reconhecido como fazendo parte do processo engrandecedor da empresa.
A ideologia vigente nas organizações é a da racionalidade e cientificidade. Esta postura tem suas origens na Grécia antiga, quando em um dado momento do desenvolvimento de sua filosofia o corpo foi dividido em cabeça (razão), tronco e coração (sentimento, vontade) e membros inferiores (instintos naturais). No século XVII, René Descartes contribuiu ainda mais para essa visão de valorização da razão ao fazer a separação entre mente e corpo. Assim, o lado místico do desenvolvimento ocidental, que antes se fazia notar na mitologia grega, praticamente se perdeu; e o reflexo disso é que hoje se acredita na transcendência da empresa e que todos os problemas são possíveis de solução operacional. Assim mesmo com tanto progresso tecnológico e cientifico; a civilização não conseguiu resolver os seus problemas; pois a sociedade desvalorizou o equilíbrio entre as funções mentais do ser humano e superestimou o valor da razão. A perversidade proibida na vida singular e bloqueada pela razão se torna possível no vinculo com a organização; o perverso considera que em nome da organização tudo se justifica e tudo existe em função dela.

Laços libidinais e perversão.

A sociedade vem se desenvolvendo e fortalecendo em dois aspectos principais, se por um lado o egoísmo é cada vez mais incentivado pelo modelo capitalista, por outro as formas de perversão e de vazão dos instintos sexuais estão sendo cada vez mais bloqueados pela razão. O ambiente nas grandes empresas não é diferente, totalmente doentio e recheado de falsos moralismos que não acontecem na prática, pois as perversões têm assumido formas cada vez mais discretas e dificilmente notáveis entre os membros de uma empresa.
Os laços libidinais que são tidos na psicanálise como os laços que se originam dos filhos para com seus pais (consistindo para um garoto na figura do pai, que é tomado como ideal; e na da mãe, que é tomada como objeto de desejo), geralmente são transferidos para os chefes na empresa. Esta condição psíquica pode gerar transtornos caso haja um abuso do poder por parte dos chefes; o indivíduo por se sentir preso ao chefe pelos laços libidinais e isto pode conduzir em alguns casos ao assédio sexual. Outro motivo que potencializa as perversões dentro da organização é o temor por ficar desempregado, situação que se constrói no imaginário das pessoas como típica de indivíduos fracassados.
O perverso tem em si a necessidade de desqualificar e rebaixar o outro para poder se sobressair ou manter uma alta auto-estima; estas agressões psíquicas começam com um abuso de poder seja este poder fundamentado no real ou no imaginário. No caso do poder real o perverso utiliza-se de sua condição hierárquica avantajada para cometer o assédio; e no caso do poder imaginário o perverso utiliza-se da construção psíquica de seu poderio, baseando-se nas diferenças étnicas, nas diferenças de gênero e opções sexuais, nas questões culturais, e nos diplomas que possui. O individuo perseguido é acarretado de duvida do que está acontecendo, pois o ataque acontece na maioria das vezes de forma muito discreta, com a negligência dos demais colegas que não participam e com a negação do assédio por parte do agressor; com isso, a vítima acaba levando para si a culpa de estar sofrendo as agressões mentais.    
    
Movimentos de contracultura

O fato de a civilização ter avançado muito em conhecimento, mas continuar tendo graves problemas como a violência, fraude, estupros, fome, desigualdades, solidão, transtornos mentais, vícios, guerras; têm levado diversas pessoas do mundo todo a questionarem a conjuntura da sociedade. Em diversos momentos da historia foram necessárias forças motoras instituintes para repensar a sociedade, contudo muitas vezes essas mudanças ocorreram aos poucos. Um movimento notável na década de 60 e 70 que objetivava uma mudança radical da sociedade foi o movimento hippie; este movimento considerava que o governo, as indústrias, o exército, os valores tradicionais e a moda fazem parte de uma instituição única, que sobrevive na interligação destes diversos setores. Baseando-se no pacifismo, os hippies apoiavam o anarquismo e os ideais de comunidades igualitárias. Traziam do extremo oriente diversos valores religiosos e o uso da meditação como forma de transcender a consciência para muito além do ego. As práticas hippies mais abominadas pela sociedade tradicional são o nudismo e o uso da maconha, que segundo os hippies era capaz de promover a libertação da mente. Além dos hippies, podemos notar a expansão de tradições como o Zen-budismo e a busca pelo misticismo efetuada por diversos ocidentais, como o psicólogo Carl Jung que estudou profundamente o ocultismo em diversas culturas.    

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