Amigos, quero muito voltar a postar aqui. Mas preciso me reacostumar a escrever, há muito não escrevo por hobby. Mas agora estou com tempo novamente, e em duas semanas, entro de férias da faculdade, então voltarei a postar de vez. Até lá, deixo um micro-conto que escrevi há muito tempo, mas que ainda me traz muitos sentimentos á tona.
Passeio Matinal
"Cacete de agulha!" - Anônimo no youtube
Quero um buraco.
Um buraco bem grande.
Aliás não. Quero um buraco pequeno e aconchegante, um que seja da exata medida.
Mas não existem buracos de exata medida, pensei com desgosto.
Um buraco imaginário então, foi o que comecei a elaborar. Fechei os olhos até que finalmente, oh! bato sete palmas de alegria e estremeço de prazer. Este é o buraco exato. Aconchego-me com ternura e potência dentro de minha caverna escura, minhas quatro paredes de plenitude e solidão. Uma voz baixa, no entanto, me chama. Uma voz fraca e débil, como um pequeno pássaro de asa quebrada. Inquieto-me e irrito-me com a perda súbita da pseudo-epifania vigente. Abro os olhos então e, como Adão, sinto vergonha de minha nudez. O horror toma conta de minha mente, só quero voltar para o buraco.
- Venha, diz uma voz autoritária, venha, diz outra vez. A janela me chama, busco a impossibilidade de repetir o fenômeno da quietude do prazer. Da solidão. Percebo-me hipnotizado e guiado pela voz, até que o pássaro parece recuperar suas asas e, com muito esforço, grito: Não! Não, não, não! Levanto-me da cama bruscamente. Estou atrasado para um compromisso! Pensei, fingindo-me esquecer de tê-lo cancelado previamente. Agarro-me com todas as forças a esta desculpa e saio de casa, inseguro ainda. Perco-me em labirintos e bosques, e logo percebo-me passeando entre corredores tranquilos no largo do campo grande.
A paisagem me é familiar e sinto-me protegido de algum modo. Foi quando percebi, com súbito horror e surpresa, que o único que chegava perto de me compreender era o meu eu. Ele era o único para quem eu existia. Mas como podia ser, que poderia querer eu com meu eu? Meu eu fraco, covarde, repleto de absolutos. Só poderia querer mesmo racionalidade, e olhe lá! E logo agora que eu havia finalmente adquirido controle sobre meu corpo e mente, agora que a besta adormecida soltava suas amarras como o pássaro débil que ganhara asas, logo agora, a luz incide sobre este fato inquietante.
Mas como o tempo passa! Pensei distraído, notando a mudança no ambiente ao meu redor. Percebo-me num ônibus lotado, passando pela Barra. As ondas do mar parecem refletir minha alma de forma incômoda. Sou como um pequeno peixe, pensei, que insiste em ser peixe ao invés de deixar-se ser mar. Em ser algo e não em ser, só. E ainda luta com bravura contra as ondas! Entre as cabelos ondulados à minha frente e o mar, percebo uma enorme distância. Então é por isso que as pessoas fazem. Ser é difícil, e, principalmente, muito perigoso. Fazer é fácil e confortável. Mas que havia eu de me preocupar, afinal? Tinha pouco mais de vinte anos, somos tão jovens. Há muito para se fazer na vida. O ser, deixamos pra lá, não tem importância, este nós deixamos para os filósofos e poetas, e todos sabem que fim tem os filósofos e os poetas. Mas será que fui escolhido? Se o tiver sido, não tenho escolha. Posso lutar contra marolas mas não contra a imensidão do mar. Só o buraco é livre dos signos. Ah, como o buraco me fascina, me atrai e me enoja, pensei com asco. Asco de quê? Não sei. De ser, talvez, ou será medo? Cacete de agulha.
Esse texto é realmente um dos seus escritos mais marcantes, me lembro dele! Muito bom, Cacete de agulha!
ReplyDeleteEngraçado, no final você fala muito parecido com aquela frase do Jung sobre o peixe que acredita conter o mar, sendo que você não a conhecia na época.
Não conhecia mesmo! É o inconsciente coletivo hehe
ReplyDeleteLegal ter você mais uma vez no meio de nós, jovem Padawan.
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