Thursday, June 4, 2015

A volta do que não foi

Amigos, quero muito voltar a postar aqui. Mas preciso me reacostumar a escrever, há muito não escrevo por hobby. Mas agora estou com tempo novamente, e em duas semanas, entro de férias da faculdade, então voltarei a postar de vez. Até lá, deixo um micro-conto que escrevi há muito tempo, mas que ainda me traz muitos sentimentos á tona.

Passeio Matinal

"Cacete de agulha!" - Anônimo no youtube

Quero um buraco.

Um buraco bem grande.

Aliás não. Quero um buraco pequeno e aconchegante, um que seja da exata medida.

Mas não existem buracos de exata medida, pensei com desgosto.

Um buraco imaginário então, foi o que comecei a elaborar. Fechei os olhos até que finalmente, oh! bato sete palmas de alegria e estremeço de prazer. Este é o buraco exato. Aconchego-me com ternura e potência dentro de minha caverna escura, minhas quatro paredes de plenitude e solidão. Uma voz baixa, no entanto, me chama. Uma voz fraca e débil, como um pequeno pássaro de asa quebrada. Inquieto-me e irrito-me com a perda súbita da pseudo-epifania vigente. Abro os olhos então e, como Adão, sinto vergonha de minha nudez. O horror toma conta de minha mente, só quero voltar para o buraco.

- Venha, diz uma voz autoritária, venha, diz outra vez. A janela me chama, busco a impossibilidade de repetir o fenômeno da quietude do prazer. Da solidão. Percebo-me hipnotizado e guiado pela voz, até que o pássaro parece recuperar suas asas e, com muito esforço, grito: Não! Não, não, não! Levanto-me da cama bruscamente. Estou atrasado para um compromisso! Pensei, fingindo-me esquecer de tê-lo cancelado previamente. Agarro-me com todas as forças a esta desculpa e saio de casa, inseguro ainda. Perco-me em labirintos e bosques, e logo percebo-me passeando entre corredores tranquilos no largo do campo grande.

        A paisagem me é familiar e sinto-me protegido de algum modo. Foi quando percebi, com súbito horror e surpresa, que o único que chegava perto de me compreender era o meu eu. Ele era o único para quem eu existia. Mas como podia ser, que poderia querer eu com meu eu? Meu eu fraco, covarde, repleto de absolutos. Só poderia querer mesmo racionalidade, e olhe lá! E logo agora que eu havia finalmente adquirido controle sobre meu corpo e mente, agora que a besta adormecida soltava suas amarras como o pássaro débil que ganhara asas, logo agora, a luz incide sobre este fato inquietante.

        Mas como o tempo passa! Pensei distraído, notando a mudança no ambiente ao meu redor. Percebo-me num ônibus lotado, passando pela Barra. As ondas do mar parecem refletir minha alma de forma incômoda. Sou como um pequeno peixe, pensei, que insiste em ser peixe ao invés de deixar-se ser mar. Em ser algo e não em ser, só. E ainda luta com bravura contra as ondas! Entre as cabelos ondulados à minha frente e o mar, percebo uma enorme distância. Então é por isso que as pessoas fazem. Ser é difícil, e, principalmente, muito perigoso. Fazer é fácil e confortável. Mas que havia eu de me preocupar,  afinal? Tinha pouco mais de vinte anos, somos tão jovens. Há muito para se fazer na vida. O ser, deixamos pra lá, não tem importância, este nós deixamos para os filósofos e poetas, e todos sabem que fim tem os filósofos e os poetas. Mas será que fui escolhido? Se o tiver sido, não tenho escolha. Posso lutar contra marolas mas não contra a imensidão do mar. Só o buraco é livre dos signos. Ah, como o buraco me fascina, me atrai e me enoja, pensei com asco. Asco de quê? Não sei. De ser, talvez, ou será medo? Cacete de agulha.

Wednesday, June 3, 2015

A LISTA

— Cara, mas a bíblia é muito doida. Fica falando de graça, perdão e reconciliação, de um Deus amoroso e tal. Mostra Jesus perdoando todo mundo, a torto e a direito, com aquela frase tipo, "alguém te condenou? eu também não te condeno" e essas coisas todas. Aí, do nada, aparece uma lista de condenados, gente que não pode entrar no Reino de Deus. Tem de tudo lá, mentiroso, ciumento, fofoqueiro e sei lá mais o quê. É uma loucura isso.


— O que gera tanta confusão é o histórico, meu velho. A gente tá imerso em dois mil anos de cultura cristã. O ocidente todo está. Não tem um que se escape. Dois mil anos de rituais, doutrinas, hierarquias e medos. A gente já lê a bíblia condicionado. Até ateu faz assim, porque cristianismo não é só religião, fé, crença; cristianismo é cultura ocidental. O que nos chama a atenção é o que a igreja oficial gritou do alto dos púlpitos esse tempo todo. E a mensagem oficial é política. Tem a ver com controle de massas, com jogos de poder, com grana, com vaidades de todo tipo. Os dois mil anos de discurso oficial nos tornaram cegos para o fato mais assombroso da mensagem bíblica. O que não somos mais capazes de ver é que a bíblia é toda ela subversiva. Mas é um livro inserido na história e que precisa ser lido entendendo esse vínculo profundo de cada parte dela com o tempo em que foi escrito. A lei de Moisés era um grito de justiça e igualdade atravessando a opressão das lanças e escudos da idade do bronze. Séculos depois os profetas levantam a voz relendo a lei sobre novos olhos, reinterpretando a lei e confrontando reis e sacerdotes. "Misericórdia quero e não sacrifícios", é a reformulação do grito da lei para uma nova geração. Jesus lendo Isaías na sinagoga é o novo grito, agora encarnado, agora definitivo.

— Mas a lista de condenados é posterior a Jesus.

— É verdade. Mas veja bem. A história da bíblia é a história das interpretações humanas a respeito da revelação discreta de Deus na alma confusa do homem. Primeiro Abraão, depois Moisés, depois os profetas, cada um reinterpretando e resignificando a mesma mensagem de graça, perdão, reconciliação, de um Deus amoroso, como podia, a seu tempo. Aí vem Jesus, o Emmanuel, o Deus conosco, a encarnação desse Deus que vinha sendo interpretado durante toda história. Depois de Jesus, começa tudo de novo. Novas interpretações e resignificações dessa mensagem, com a diferença que, agora, a mensagem é observável, tem carne e osso. Mas as reinterpretações prosseguem. Paulo e Tiago, por exemplo, reinterpretam-se a tal ponto que um parece contrariar o outro às vezes. Lutero queria tirar a carta de Tiago da bíblia porque ele reinterpretava e resignificava Paulo. Mas mais do que isso, Paulo reinterpreta e resignifica a si mesmo em diferentes situações. Num momento somos todos iguais e já não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher - coisa que é subversão ainda hoje, imagine na época - em seguida as mulheres devem se calar porque não é bom que falem em público.

— Mas e a lista?

— Não há uma lista de condenados, amigo. Pelo menos não como você imagina. Você lê como se houvesse porque lê a partir da cultura cristã de dois milênios. Para Jesus a coisa é simples. O Reino de Deus é como um rei que queria cobrar as dívidas dos seus súditos, é o que diz aquele contador de histórias. Porque, não custa lembrar, a bíblia é essencialmente um livro de histórias, e histórias tem muito mais a dizer do que doutrinas a ensinar. O Reino é como um rei que, para cobrar uma dívida, chama um súdito sabendo que o que ele deve é muito maios do que jamais poderia pagar. É o reino de um rei que vê o súdito olhar nos seus olhos desesperado porque sabe não ter como pagar, e crê que há uma pena natural para quem não paga. Mas é, acima de tudo, o reino de um rei que com voz mansa e olhar amoroso derrama graça, perdão e reconciliação sobre o devedor. Anula o débito. Já não há nada a ser pago. Assim é o Reino de Deus, é o que afirma Jesus em sua parábola. Acontece que o súdito perdoado também tem alguém que deve a ele, e a história prossegue. E do ponto de vista desse súdito, perdoar não é algo aceitável. Ele aceita o perdão, mas não perdoa. Receber e admissível, mas oferecer é ofensivo. O sujeito manda prender seu credor e executar a dívida. Mas o reino é lugar de perdão, graça, amor e reconciliação. Essa é a mensagem. É lugar de perdão e graça mútuos. Basta ao discípulo ser como o mestre é o mesmo que dizer basta ao súdito agir como o rei. A sua confusão, amigo, é entender que a lista de condenados indica gente que não pode entrar. Não é isso que indica a lista. O ambiente do Reino é perdão, graça e amor. Essa é a atmosfera, o ar que se respira nesse Reino. Esse é o reino sussurrado em toda bíblia, de capa a capa. A lista não indica quem não pode. Indica quem não quer.

Do brother Tuco Egg - atrilha.blogspot.com - um dos melhores blogs da atualidade, sem exagero nenhum!

Tuesday, June 2, 2015

A morte do instante anterior

Mergulhado no momento, é ai que se pode fazer uma mudança radical no pensamento.
Mas a pessoa radical deve ser leve, sutil, para que ai não se possa achar tensão.

Momentaneamente mergulhado, é ai que se faz a imersão para renascer. 
Ressurgir depois de longas noites no inconsciente inóspito e frio.

Quem é afinal o dono da casa? Eu, o outro, Deus, ou o herói.
A casa deve estar vazia. Não há dono algum por direito.

Porque tememos tanto esse vazio, o que há ai?
Há ai um abismo sem fim, que toca a morte.

Só é preciso um pouco de paciência, 
Como distinguir o caminho certo?

Não há caminho certo,
Mas há muitos falsos.

Falsos, Lá-depois.
seja Aqui-Agora.

E tudo chega
a um fim.

Ame
mais

rip

Friday, May 15, 2015

Entrega, o ato de buscar a si-mesmo.

A coisa mais importante que o masculino pode aprender com o feminino é a entrega. Também o feminino pode aprender algo importante com o masculino: o controle. Mas já que vivemos num Ocidente Masculino, considero mais importante falar sobre o elemento feminino, para equilibrar a balança. A natureza, a união cósmica, o destino, o sagrado, são coisas que só podem ser vivenciadas se a alma está entregue ao Novo de tal forma que as amarras da tradição e do passado são totalmente desfeitas. 


Durante muito tempo, e ainda hoje, os monges, os Zen-budistas, os taoistas, poetas, artistas, e até mesmo alguns filósofos, tem falado sobre esta entrega. As mentes mais introspectivas e que melhor se conheceram parecem apontar para o que C.G Jung chamou de processo de individuação, ou encontrar a si-mesmo. O que seria isso: encontrar a si-mesmo? Para falar desse encontro, precisamos falar do desencontro que é perder-se a si-mesmo. Nascemos originais, no entanto, a forma como a sociedade está configurada nos torna mais-do-mesmo, ou como diz a música do Pink Floyd “apenas mais um tijolo na parede”. Nossos sonhos tornam-se sonhos do outro, sonhos iguais, sonhos massificados. O Ego emerge, na relação com o outro, e ao tentar evitar desagrados acaba reprimindo grande parte da nossa personalidade original e vivemos sobre a máscara da Persona, representando uma personalidade muito limitada. Se na relação com o outro, vivêssemos a angústia ela duraria pouco, mas queremos nos poupar, queremos evitar, fugir, mentir, e assim evitando encarar os fatos, prolongamos a angústia. Perder-se é portanto consequência da vida em rebanho, da massificação, dos sonhos dos nossos pais, do condicionamento, de seguir a linha. O indivíduo que rejeita essa trajetória pré-estabelecida socialmente para ele é um rebelde! Ele está seguindo o seu destino, em direção ao self (si-mesmo). Para tanto, é preciso a entrega e aceitação. Não estamos falando a respeito de aceitar as injustiças do mundo, estamos falando da entrega interior. Não maquiar as emoções, olhar para elas. Se estiver com raiva, admitir a raiva, olhar para ela. Não matar, mas admitir a raiva. É diferente. Do contrário o indivíduo não irá conhecer-se a si mesmo, e continuará projetando sua sombra no mundo e nas pessoas ao seu redor.



" As coisas que vemos são as mesmas que temos dentro de nós" ( Hermann Hesse)

Wednesday, March 18, 2015

Manifestações 2015, Eleições e Impeachment

Devido ao clima que paira no ar em todo país, me sinto impelido a escrever algo a respeito das manifestações desse ano. Tal motivação talvez tenha surgido da conversa com um senhor que me indagou se eu havia ido aos protestos de Domingo. No momento em que eu respondo que não, surge uma estranheza no diálogo com o senhor; começa-se a questionar sobre o grau de comprometimento que eu tenho com o bem-estar da população, e começa-se a repudiar minha atitude de ter permanecido em casa. Num dado momento da conversa, este senhor me pergunta o que eu tenho feito para melhorar o país. Eu devolvo a pergunta. E ele me sorri meio que querendo dizer: " Eu estava lá". 

Essa pequena cena, me fez pensar um pouco sobre o valor que essa participação política tem na vida de muitas pessoas, e sobre o porque fui rechaçado, não só nesse meu pequeno relato, mas em outros acontecimentos semelhantes também. Em verdade, a maior parte das pessoas sente que está cumprindo seu dever como cidadã e que está promovendo uma mudança no país pelo simples fato de ter escolhido entre alguns candidatos numa urna. Não vou esconder minha posição a esse respeito: é muito difícil votar. Há duas opções, o fantoche da esquerda, ou o fantoche da direita... Ou ainda... como satiriza a série South Park, há duas opções: O Sanduíche de Merda, ou o Babaca Inútil. Aliás, vale a pena lembrar que em South Park, o personagem com "traços anarquistas" Stan, foi banido da cidade por ter abdicado de seu voto. Conforme nos alerta George Carlin "de onde diabos pensamos que os políticos vêm?" Eles vêm de nossas escolas, de nossas famílias, de nossas Igrejas. Então se há algo errado com eles, é porque deve haver algo errado conosco. Nenhum político, repito NENHUM político se elege sozinho. É a população quem o elege, e as atuais  manifestações demonstram que o povo esta reivindicando seu poder. Há algo errado com o governo petista? Sem dúvidas, mas isso não significa que vivíamos as mil maravilhas nos governos anteriores. Portanto, obviamente, a reforma política tem que ser muito mais profunda do que uma mudança presidencial. Não se trata de mudar as peças, se trata de mudar o sistema. É aceitável um sistema político onde a corrupção é possível e fácil? Obviamente não. Não basta um Impeachment. Meu desprezo pela política do nosso país, psicologicamente, é tão significativo para mim quanto as manifestações para o senhor que mencionei no início desse texto. Imagine a repercussão de uma eleição onde ninguém votasse. As pessoas iriam ter que se reunir, assim como agora, para discutir o futuro do país. O voto nulo é a maior demonstração de que alguém não leva a sério a piada que está sendo contada pelos políticos. 


Outro ponto importante: Política não é um campeonato de futebol! Se você pensa que o seu partido é o seu time, bem... talvez seja um campeonato pra você. Aliás, só de você ter um partido num país como esse, talvez seja um campeonato para você. Confira nesse video o que acontece quando se trata política como o futebol:   

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https://www.youtube.com/watch?v=BNKMCVLv4Ks

Quando as pessoas tem um partido definido, o diálogo entre as partes é muito dificultado, e cria-se uma tendência a ver apenas um lado da moeda. Pelo menos é isto que tenho observado nos "devotos" dos mais variados partidos. Nesses casos, acusações são comuns, do tipo "alienado", "elitista", ou pior, "nordestino analfabeto".  


Conclusão: Os brasileiros tem todo o direito de se manifestar, e isto pressiona o governo a efetuar algumas mudanças, Entretanto, é equivocado supor que alguém que não foi as manifestações está alheio ao que esta acontecendo no país. Não fui as manifestações porque não é meu modo de agir. Acredito nas micro-revoluções tanto ou mais do que nas macro, uma pequena atitude de uma pessoa perante a vida, pode ser suficiente para colaborar com o bem-estar social, tais como honestidade e um trabalho que produz resultados sociais, por exemplo. Esta mudança individual, em larga escala, pode ter mais efeito do que as revoluções coletivas, uma vez que nessas últimas há sempre alguém tentando tirar proveito do movimento das massas. Reitero a indagação de Olavo de Carvalho: no tão bem intencionado socialismo, o militante após concluir sua revolução simplesmente irá para casa descansar e aproveitar o comunismo ou ele está em busca de uma posição de destaque e poder? ( No lugar de socialismo, pode ler-se fascismo, direitismo, ou o ismo que lhe convir).    

Sunday, February 22, 2015


Entre algumas reuniões na área central da cidade, uma cena chocou-me: meio dia e quinze - aproximadamente - um calor de 35 graus sob um sol impiedoso, algumas centenas de pessoas preocupadas justamente com seus trabalhos e  compromissos atravessando as ruas lotadas do centro da cidade quando eu vejo um homem engatinhando sob a faixa de pedestre. 
Veja bem, ele estava engatinhando, se arrastando com os joelhos e com as mãos, enquanto olhava amedrontado os carros passando a seu lado. Entre um pesado transito, dentro do meu jipe, não pude fazer absolutamente nada. 

Apenas esperei.

Esperei atentamente para que uma boa alma auxiliasse aquele homem de alguma maneira.
Mas não aconteceu nada, absolutamente nada. Provavelmente, nos 3 minutos que se passaram com aquele homem se arrastando até o meio fio tivesse passado umas cinquenta pessoas ao seu lado. Apenas olhando, julgando, ojerizando. Talvez mais.
Ninguém, absolutamente ninguém, o ajudou de alguma maneira e aquela visão me doeu na alma, principalmente por que eu também não fiz nada a respeito. Logo que passei ao lado desse homem, o reconheci: era um mendigo viciado em drogas e alcoólatra, que habita na região central da cidade há alguns meses. Seu rosto sempre muito marcado, e o cheiro fortíssimo de urina misturada com álcool e vômito acaba afastando as pessoas que podem vir a ajudá-lo. 

Alguns minutos depois de encerrar uma reunião eu estava caminhando até o estacionamento e lá estava ele: sob um acolchoado malcheiroso e manchado, ele estava deitado em um travesseiro com fronha azul e branca que contrastava com seus cabelos tão escuros e cacheados. O cheiro era muito forte, e o calor só acentuava a sensação de asco para as pessoas que passavam ao seu lado. Eu não conseguiria passar incólume. Passei devagar ao seu lado, olhando na expectativa de que me pedisse algo. 

Deu certo.

Ele me olhou indiferentemente e me pediu uns trocados. Perguntei se ele não preferia um prato de comida, por que bem perto dali havia um restaurante. Ainda indiferente, me disse que já havia almoçado mais cedo e que queria apenas um trocado.
"Bom, vou dar um trocado, pelo menos vou me sentir bem." Mas não consegui. Não queria me sentir bem apenas por dar um trocado. Ele precisa muito mais do que meu dinheiro.
"Moço, eu não te conheço, mas se precisar de ajuda, gostaria de faze-lo. Conheço um grupo em uma fazenda aqui perto, uma ONG mantida por uma igreja, que pode ajudá-lo se quiser sair do vício. Se você quiser, posso levá-lo até lá para ajudá-lo. Não quero nada em troca e você não precisa levar nada do que tem aqui. Você quer?"'
"Se tá loco (sic). Vô morrê por causa da pedra e da pinga. Tenho 36 anos (vocês não imaginam, mas parecia ter mais de 50), sô viciado em crack faiz cinco anos e bebo cachaça desde quando eu tinha quatorze. Já fudi com minha família, larguei a muié com minha filha faiz uns 3 anos e minha mãe mora na capital, mas não fala comigo faiz bastante tempo."
"Só quero tentar ajudar. Sua vida deve ter sido muito difícil, mas se você buscar no lugar certo, vai encontrar a força e a saída que precisa. E esse grupo pode ser uma maneira de voltar atrás e consertar sua vida. Você precisa querer. Pensa na sua filha."

Ele silenciou e ficou me olhando, me encarando com um rosto sério mas incrédulo. 

"Penso nela tudo dia. Mas essa desgraça não me deixa, to preso aqui por causa dessa porra de droga. Eu choro, as veiz. Mais minha vida já tá tuda fudida. Eu quiria pedir perdão pra minha mãe e minha muié, mas num tenho coragi não (sic). To com o figo (fígado) fodido, com os pulmão doído, e as veiz vejo e converso com um vulto aqui e até brigo com ele."
(Nota: depois fiquei sabendo que ele sofre com distúrbio bipolar e depois, como consequência do crack, esquizofrenia).
"Mas existem remédios para isso. Você ainda pode ser ajudado."
Nesse momento, ele ri, esfrega os olhos e insiste no trocado. Fiz uma ultima tentativa:
"Você realmente não quer ser ajudado? Existem pessoas que podem te ajudar em um local adequado para você, não aqui na rua."
"Óia guri, eu.." (Nesse momento ele começa a discutir com o vulto, se levanta e fica agitado na minha frente, como alguem que impede uma briga entre duas pessoas, mas não consegui distinguir as palavras.
Ele repentinamente se vira em minha direção e dá dois passos, com uma expressão de susto, e começa a falar apontando o dedo.
"Quem é ucê que acha que podi me ajudá?"
Olhei e antes de responder, ele colocou uma das  mãos na boca e apontou para mim, na verdade parecia apontar para alguém do meu lado. Fiquei atonito. Observei que ele, com a boca pouco aberta, parecia escutar alguém. Mas na minha cabeça, tudo era a consequência da esquizofrenia. 
Ele olhou, seus olhos antes esbugalhados, se baixaram. Ele virou as costas, e ficou olhando a propria sombra no chão.
Voltei a ele e estendi as mãos:
"E então, vamos? Deixe-me ajuda-lo."
Ele simplesmente me olhou, e disse algo com uma gramática impecável antes de gargalhar e se deitar novamente. Fui embora absolutamente pensativo.

"Eu quero é sair desse beco infinito e cinza. Desse fim de mundo onde o sol se esconde todo dia, mas nunca nasce. Mas ninguem pode faze-lo pra mim. Eu preciso querer antes de voce vir me ajudar, e hoje, honestamente, ainda nao quero. "


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Jesus nos ensinou como viver, mas agimos como se tivesse nos ensinado como pregar.

Ele veio para que tivéssemos vida, mas agimos como se fosse para que tivéssemos o discurso correto. 

Nos ensinou a servir, mas queremos convencer.

Nos ensinou a amar incondicionalmente, mas aprendemos a incluir uns e excluir outros do nosso abraço.

Foi amigo de pecadores, nós só nos aproximamos de santos.

O representante típico do cristianismo retira da boca de Jesus parte de seu mais famoso sermão e a aplica contra o mestre: vocês ouviram o que Ele disse, eu porém vos digo.





OSCAR 2015

Logo abaixo estão meus palpites e predileções para o OSCAR 2015, apresentado por Neil Patrick Harris.

Melhor filme
"Sniper americano"
"Birdman"
"Boyhood: Da infância à juventude"
"O grande hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Selma"
"A teoria de tudo"
"Whiplash"

Quem vence: "Birdman"
Meu Palpite:  "Boyhood: Da infância à juventude"

Melhor diretor
Alejandro Gonzáles Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Bennett Miller ("Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo")
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Morten Tyldum ("O jogo da imitação")

Quem vence: Richard Linklater - "Boyhood"
Meu Palpite:  Alejandro Gonzáles Iñárritu - "Birdman"

Melhor ator
Steve Carell ("Foxcatcher")
Bradley Cooper ("Sniper americano")
Benedict Cumberbatch ("O jogo da imitação")
Michael Keaton ("Birdman")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Quem vence: Eddie Redmayne - "A teoria de tudo"
Meu Palpite:  Eddie Redmayne - "A teoria de tudo"

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")
JK Simmons ("Whiplash")

Quem vence: JK Simmons - "Whiplash"
Meu Palpite:  JK Simmons - "Whiplash"

Melhor atriz
Marion Cotillard ("Dois dias, uma noite")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Para sempre Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Witherspoon ("Livre")

Quem vence: Julianne Moore - "Para sempre Alice"
Meu Palpite:  Julianne Moore - "Para sempre Alice"

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Laura Dern ("Livre")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")
Quem vence: Patricia Arquette - "Boyhood"
Meu Palpite:  Patricia Arquette - "Boyhood"

Melhor filme em língua estrangeira
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)
"Timbuktu" (Mauritânia)
"Relatos selvagens" (Argentina)

Quem vence: "Leviatã" (Rússia)
Meu Palpite:  "Tangerines" (Estônia)

Melhor documentário
"O sal da terra"
"CitizenFour"
"Finding Vivian Maier"
"Last days"
"Virunga"

Quem vence: "O sal da terra"
Meu Palpite:  "Last Days"

Melhor animação
"Operação Big Hero"
"Como treinar o seu dragão 2"
"Os Boxtrolls"
"Song of the sea"
"The Tale of the Princess Kaguya"

Quem vence: "Operação Big Hero "
Meu Palpite:  "The Tale of the Princess Kaguya "

Melhor roteiro original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo ("Birdman"
Richard Linklater ("Boyhood")
E. Max Frye e Dan Futterman ("Foxcatcher")
Wes Anderson e Hugo Guinness ("O grande hotel Budapeste")
Dan Gilroy ("O abutre")

Quem vence: "Wes Anderson e Hugo Guinness - "O grande hotel Budapeste"
Meu Palpite:  "Wes Anderson e Hugo Guinness - "O grande hotel Budapeste"

Melhor roteiro adaptado
Jason Hall ("Sniper americano")
Graham Moore ("O jogo da imitação")
Paul Thomas Anderson ("Vício inerente")
Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Damien Chazelle ("Whiplash")

Quem vence: Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Meu Palpite:  Damien Chazelle ("Whiplash")


Melhor fotografia
Emmanuel Lubezki ("Birdman")
Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski ("Ida")
Dick Pope ("Sr. Turner")
Roger Deakins ("Invencível")

Quem vence: Robert Yeoman  - "O grande hotel Budapeste"
Meu Palpite:  Robert Yeoman  - "O grande hotel Budapeste"

Melhor montagem
Joel Cox e Gary D. Roach ("Sniper americano")
Sandra Adair ("Boyhood")
Barney Pilling ("O grande hotel Budapeste")
William Goldenberg ("O jogo da imitação")
Tom Cross ("Whiplash")

Quem vence: Robert Yeoman  - Sandra Adair - "Boyhood"
Meu Palpite:  Robert Yeoman  - Sandra Adair - "Boyhood"

Melhores efeitos visuais
Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill e Dan Sudick ("Capitão América 2: O soldado invernal")
Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist ("Planeta dos macacos: O confronto")
Stephane Ceretti, Nicolas Aithadi, Jonathan Fawkner e Paul Corbould ("Guardiões da Galáxia")
Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher ("Interestelar")
Richard Stammers, Lou Pecora, Tim Crosbie e Cameron Waldbauer ("X-Men: Dias de um futuro esquecido")

Quem vence: Robert Yeoman  - Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist - "Planeta dos macacos: O confronto"
Meu Palpite:  Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher -"Interestelar"
 
Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat ("O grande hotel Budapeste")
Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Hans Zimmer ("Interestelar")
Gary Yershon ("Sr. Turner")
Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")
 
Quem vence:  Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")
Meu Palpite:  Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")