Wednesday, March 18, 2015

Manifestações 2015, Eleições e Impeachment

Devido ao clima que paira no ar em todo país, me sinto impelido a escrever algo a respeito das manifestações desse ano. Tal motivação talvez tenha surgido da conversa com um senhor que me indagou se eu havia ido aos protestos de Domingo. No momento em que eu respondo que não, surge uma estranheza no diálogo com o senhor; começa-se a questionar sobre o grau de comprometimento que eu tenho com o bem-estar da população, e começa-se a repudiar minha atitude de ter permanecido em casa. Num dado momento da conversa, este senhor me pergunta o que eu tenho feito para melhorar o país. Eu devolvo a pergunta. E ele me sorri meio que querendo dizer: " Eu estava lá". 

Essa pequena cena, me fez pensar um pouco sobre o valor que essa participação política tem na vida de muitas pessoas, e sobre o porque fui rechaçado, não só nesse meu pequeno relato, mas em outros acontecimentos semelhantes também. Em verdade, a maior parte das pessoas sente que está cumprindo seu dever como cidadã e que está promovendo uma mudança no país pelo simples fato de ter escolhido entre alguns candidatos numa urna. Não vou esconder minha posição a esse respeito: é muito difícil votar. Há duas opções, o fantoche da esquerda, ou o fantoche da direita... Ou ainda... como satiriza a série South Park, há duas opções: O Sanduíche de Merda, ou o Babaca Inútil. Aliás, vale a pena lembrar que em South Park, o personagem com "traços anarquistas" Stan, foi banido da cidade por ter abdicado de seu voto. Conforme nos alerta George Carlin "de onde diabos pensamos que os políticos vêm?" Eles vêm de nossas escolas, de nossas famílias, de nossas Igrejas. Então se há algo errado com eles, é porque deve haver algo errado conosco. Nenhum político, repito NENHUM político se elege sozinho. É a população quem o elege, e as atuais  manifestações demonstram que o povo esta reivindicando seu poder. Há algo errado com o governo petista? Sem dúvidas, mas isso não significa que vivíamos as mil maravilhas nos governos anteriores. Portanto, obviamente, a reforma política tem que ser muito mais profunda do que uma mudança presidencial. Não se trata de mudar as peças, se trata de mudar o sistema. É aceitável um sistema político onde a corrupção é possível e fácil? Obviamente não. Não basta um Impeachment. Meu desprezo pela política do nosso país, psicologicamente, é tão significativo para mim quanto as manifestações para o senhor que mencionei no início desse texto. Imagine a repercussão de uma eleição onde ninguém votasse. As pessoas iriam ter que se reunir, assim como agora, para discutir o futuro do país. O voto nulo é a maior demonstração de que alguém não leva a sério a piada que está sendo contada pelos políticos. 


Outro ponto importante: Política não é um campeonato de futebol! Se você pensa que o seu partido é o seu time, bem... talvez seja um campeonato pra você. Aliás, só de você ter um partido num país como esse, talvez seja um campeonato para você. Confira nesse video o que acontece quando se trata política como o futebol:   

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https://www.youtube.com/watch?v=BNKMCVLv4Ks

Quando as pessoas tem um partido definido, o diálogo entre as partes é muito dificultado, e cria-se uma tendência a ver apenas um lado da moeda. Pelo menos é isto que tenho observado nos "devotos" dos mais variados partidos. Nesses casos, acusações são comuns, do tipo "alienado", "elitista", ou pior, "nordestino analfabeto".  


Conclusão: Os brasileiros tem todo o direito de se manifestar, e isto pressiona o governo a efetuar algumas mudanças, Entretanto, é equivocado supor que alguém que não foi as manifestações está alheio ao que esta acontecendo no país. Não fui as manifestações porque não é meu modo de agir. Acredito nas micro-revoluções tanto ou mais do que nas macro, uma pequena atitude de uma pessoa perante a vida, pode ser suficiente para colaborar com o bem-estar social, tais como honestidade e um trabalho que produz resultados sociais, por exemplo. Esta mudança individual, em larga escala, pode ter mais efeito do que as revoluções coletivas, uma vez que nessas últimas há sempre alguém tentando tirar proveito do movimento das massas. Reitero a indagação de Olavo de Carvalho: no tão bem intencionado socialismo, o militante após concluir sua revolução simplesmente irá para casa descansar e aproveitar o comunismo ou ele está em busca de uma posição de destaque e poder? ( No lugar de socialismo, pode ler-se fascismo, direitismo, ou o ismo que lhe convir).    

Sunday, February 22, 2015


Entre algumas reuniões na área central da cidade, uma cena chocou-me: meio dia e quinze - aproximadamente - um calor de 35 graus sob um sol impiedoso, algumas centenas de pessoas preocupadas justamente com seus trabalhos e  compromissos atravessando as ruas lotadas do centro da cidade quando eu vejo um homem engatinhando sob a faixa de pedestre. 
Veja bem, ele estava engatinhando, se arrastando com os joelhos e com as mãos, enquanto olhava amedrontado os carros passando a seu lado. Entre um pesado transito, dentro do meu jipe, não pude fazer absolutamente nada. 

Apenas esperei.

Esperei atentamente para que uma boa alma auxiliasse aquele homem de alguma maneira.
Mas não aconteceu nada, absolutamente nada. Provavelmente, nos 3 minutos que se passaram com aquele homem se arrastando até o meio fio tivesse passado umas cinquenta pessoas ao seu lado. Apenas olhando, julgando, ojerizando. Talvez mais.
Ninguém, absolutamente ninguém, o ajudou de alguma maneira e aquela visão me doeu na alma, principalmente por que eu também não fiz nada a respeito. Logo que passei ao lado desse homem, o reconheci: era um mendigo viciado em drogas e alcoólatra, que habita na região central da cidade há alguns meses. Seu rosto sempre muito marcado, e o cheiro fortíssimo de urina misturada com álcool e vômito acaba afastando as pessoas que podem vir a ajudá-lo. 

Alguns minutos depois de encerrar uma reunião eu estava caminhando até o estacionamento e lá estava ele: sob um acolchoado malcheiroso e manchado, ele estava deitado em um travesseiro com fronha azul e branca que contrastava com seus cabelos tão escuros e cacheados. O cheiro era muito forte, e o calor só acentuava a sensação de asco para as pessoas que passavam ao seu lado. Eu não conseguiria passar incólume. Passei devagar ao seu lado, olhando na expectativa de que me pedisse algo. 

Deu certo.

Ele me olhou indiferentemente e me pediu uns trocados. Perguntei se ele não preferia um prato de comida, por que bem perto dali havia um restaurante. Ainda indiferente, me disse que já havia almoçado mais cedo e que queria apenas um trocado.
"Bom, vou dar um trocado, pelo menos vou me sentir bem." Mas não consegui. Não queria me sentir bem apenas por dar um trocado. Ele precisa muito mais do que meu dinheiro.
"Moço, eu não te conheço, mas se precisar de ajuda, gostaria de faze-lo. Conheço um grupo em uma fazenda aqui perto, uma ONG mantida por uma igreja, que pode ajudá-lo se quiser sair do vício. Se você quiser, posso levá-lo até lá para ajudá-lo. Não quero nada em troca e você não precisa levar nada do que tem aqui. Você quer?"'
"Se tá loco (sic). Vô morrê por causa da pedra e da pinga. Tenho 36 anos (vocês não imaginam, mas parecia ter mais de 50), sô viciado em crack faiz cinco anos e bebo cachaça desde quando eu tinha quatorze. Já fudi com minha família, larguei a muié com minha filha faiz uns 3 anos e minha mãe mora na capital, mas não fala comigo faiz bastante tempo."
"Só quero tentar ajudar. Sua vida deve ter sido muito difícil, mas se você buscar no lugar certo, vai encontrar a força e a saída que precisa. E esse grupo pode ser uma maneira de voltar atrás e consertar sua vida. Você precisa querer. Pensa na sua filha."

Ele silenciou e ficou me olhando, me encarando com um rosto sério mas incrédulo. 

"Penso nela tudo dia. Mas essa desgraça não me deixa, to preso aqui por causa dessa porra de droga. Eu choro, as veiz. Mais minha vida já tá tuda fudida. Eu quiria pedir perdão pra minha mãe e minha muié, mas num tenho coragi não (sic). To com o figo (fígado) fodido, com os pulmão doído, e as veiz vejo e converso com um vulto aqui e até brigo com ele."
(Nota: depois fiquei sabendo que ele sofre com distúrbio bipolar e depois, como consequência do crack, esquizofrenia).
"Mas existem remédios para isso. Você ainda pode ser ajudado."
Nesse momento, ele ri, esfrega os olhos e insiste no trocado. Fiz uma ultima tentativa:
"Você realmente não quer ser ajudado? Existem pessoas que podem te ajudar em um local adequado para você, não aqui na rua."
"Óia guri, eu.." (Nesse momento ele começa a discutir com o vulto, se levanta e fica agitado na minha frente, como alguem que impede uma briga entre duas pessoas, mas não consegui distinguir as palavras.
Ele repentinamente se vira em minha direção e dá dois passos, com uma expressão de susto, e começa a falar apontando o dedo.
"Quem é ucê que acha que podi me ajudá?"
Olhei e antes de responder, ele colocou uma das  mãos na boca e apontou para mim, na verdade parecia apontar para alguém do meu lado. Fiquei atonito. Observei que ele, com a boca pouco aberta, parecia escutar alguém. Mas na minha cabeça, tudo era a consequência da esquizofrenia. 
Ele olhou, seus olhos antes esbugalhados, se baixaram. Ele virou as costas, e ficou olhando a propria sombra no chão.
Voltei a ele e estendi as mãos:
"E então, vamos? Deixe-me ajuda-lo."
Ele simplesmente me olhou, e disse algo com uma gramática impecável antes de gargalhar e se deitar novamente. Fui embora absolutamente pensativo.

"Eu quero é sair desse beco infinito e cinza. Desse fim de mundo onde o sol se esconde todo dia, mas nunca nasce. Mas ninguem pode faze-lo pra mim. Eu preciso querer antes de voce vir me ajudar, e hoje, honestamente, ainda nao quero. "


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Jesus nos ensinou como viver, mas agimos como se tivesse nos ensinado como pregar.

Ele veio para que tivéssemos vida, mas agimos como se fosse para que tivéssemos o discurso correto. 

Nos ensinou a servir, mas queremos convencer.

Nos ensinou a amar incondicionalmente, mas aprendemos a incluir uns e excluir outros do nosso abraço.

Foi amigo de pecadores, nós só nos aproximamos de santos.

O representante típico do cristianismo retira da boca de Jesus parte de seu mais famoso sermão e a aplica contra o mestre: vocês ouviram o que Ele disse, eu porém vos digo.





OSCAR 2015

Logo abaixo estão meus palpites e predileções para o OSCAR 2015, apresentado por Neil Patrick Harris.

Melhor filme
"Sniper americano"
"Birdman"
"Boyhood: Da infância à juventude"
"O grande hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Selma"
"A teoria de tudo"
"Whiplash"

Quem vence: "Birdman"
Meu Palpite:  "Boyhood: Da infância à juventude"

Melhor diretor
Alejandro Gonzáles Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Bennett Miller ("Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo")
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Morten Tyldum ("O jogo da imitação")

Quem vence: Richard Linklater - "Boyhood"
Meu Palpite:  Alejandro Gonzáles Iñárritu - "Birdman"

Melhor ator
Steve Carell ("Foxcatcher")
Bradley Cooper ("Sniper americano")
Benedict Cumberbatch ("O jogo da imitação")
Michael Keaton ("Birdman")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Quem vence: Eddie Redmayne - "A teoria de tudo"
Meu Palpite:  Eddie Redmayne - "A teoria de tudo"

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")
JK Simmons ("Whiplash")

Quem vence: JK Simmons - "Whiplash"
Meu Palpite:  JK Simmons - "Whiplash"

Melhor atriz
Marion Cotillard ("Dois dias, uma noite")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Para sempre Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Witherspoon ("Livre")

Quem vence: Julianne Moore - "Para sempre Alice"
Meu Palpite:  Julianne Moore - "Para sempre Alice"

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Laura Dern ("Livre")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")
Quem vence: Patricia Arquette - "Boyhood"
Meu Palpite:  Patricia Arquette - "Boyhood"

Melhor filme em língua estrangeira
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)
"Timbuktu" (Mauritânia)
"Relatos selvagens" (Argentina)

Quem vence: "Leviatã" (Rússia)
Meu Palpite:  "Tangerines" (Estônia)

Melhor documentário
"O sal da terra"
"CitizenFour"
"Finding Vivian Maier"
"Last days"
"Virunga"

Quem vence: "O sal da terra"
Meu Palpite:  "Last Days"

Melhor animação
"Operação Big Hero"
"Como treinar o seu dragão 2"
"Os Boxtrolls"
"Song of the sea"
"The Tale of the Princess Kaguya"

Quem vence: "Operação Big Hero "
Meu Palpite:  "The Tale of the Princess Kaguya "

Melhor roteiro original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo ("Birdman"
Richard Linklater ("Boyhood")
E. Max Frye e Dan Futterman ("Foxcatcher")
Wes Anderson e Hugo Guinness ("O grande hotel Budapeste")
Dan Gilroy ("O abutre")

Quem vence: "Wes Anderson e Hugo Guinness - "O grande hotel Budapeste"
Meu Palpite:  "Wes Anderson e Hugo Guinness - "O grande hotel Budapeste"

Melhor roteiro adaptado
Jason Hall ("Sniper americano")
Graham Moore ("O jogo da imitação")
Paul Thomas Anderson ("Vício inerente")
Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Damien Chazelle ("Whiplash")

Quem vence: Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Meu Palpite:  Damien Chazelle ("Whiplash")


Melhor fotografia
Emmanuel Lubezki ("Birdman")
Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski ("Ida")
Dick Pope ("Sr. Turner")
Roger Deakins ("Invencível")

Quem vence: Robert Yeoman  - "O grande hotel Budapeste"
Meu Palpite:  Robert Yeoman  - "O grande hotel Budapeste"

Melhor montagem
Joel Cox e Gary D. Roach ("Sniper americano")
Sandra Adair ("Boyhood")
Barney Pilling ("O grande hotel Budapeste")
William Goldenberg ("O jogo da imitação")
Tom Cross ("Whiplash")

Quem vence: Robert Yeoman  - Sandra Adair - "Boyhood"
Meu Palpite:  Robert Yeoman  - Sandra Adair - "Boyhood"

Melhores efeitos visuais
Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill e Dan Sudick ("Capitão América 2: O soldado invernal")
Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist ("Planeta dos macacos: O confronto")
Stephane Ceretti, Nicolas Aithadi, Jonathan Fawkner e Paul Corbould ("Guardiões da Galáxia")
Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher ("Interestelar")
Richard Stammers, Lou Pecora, Tim Crosbie e Cameron Waldbauer ("X-Men: Dias de um futuro esquecido")

Quem vence: Robert Yeoman  - Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist - "Planeta dos macacos: O confronto"
Meu Palpite:  Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher -"Interestelar"
 
Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat ("O grande hotel Budapeste")
Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Hans Zimmer ("Interestelar")
Gary Yershon ("Sr. Turner")
Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")
 
Quem vence:  Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")
Meu Palpite:  Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")

Sunday, January 18, 2015

REDES SOCIAIS E MENTE HUMANA

Quais os efeitos do uso das redes sociais no psiquismo? Que mudanças o Facebook tem provocado em nossa maneira de viver e no funcionamento da sociedade?

Creio que já existem textos e artigos em grande quantidade sobre o tema das redes sociais, no entanto, sinto-me no dever de trazer o assunto nesse blog, que nada mais é que mais um espaço virtual. Gostaria de iniciar falando que não sou contra, nem a favor das redes sociais, e o fato de que vou apresentar mais o lado negativo das redes sociais é nada mais do que uma advertência ao uso desregulado que se vem fazendo das redes. Para refletir sobre o uso que fazemos dessa ferramenta, é necessário ter em mente que a realidade é do lado de fora do computador. Isto mesmo, do lado de fora! Parece ser óbvio, mas não é, uma vez que com o uso constante da Internet passamos a enxergar no mundo os elementos provenientes da rede. Deixe-me explicar. Como sabemos que alguém leva uma boa vida? Sabemos através do que ela expõe de sua vida, ou seja, através da parte (ou ângulo) de sua vida que ela deseja mostrar. Pessoas tem estado com a câmera na mão constantemente tirando fotografias para exibir em sua timeline, por vezes perdendo o próprio momento para obter as fotos. Não me excluo dessa situação, faço o mesmo, no entanto, considero importante refletir sobre isso, já que o critério que grande parte de nós tem para julgar se alguém está ou não fazendo algo interessante da vida é o que ela expõe. É um critério muito frágil, concorda? Portanto, em primeiro lugar está O QUE a pessoa compartilha de sua vida com a rede. Em segundo, e não menos importante, o número de curtidas! O número de curtidas é uma forma quantitativa de identificar o quão interessante é determinada atividade. Vale ressaltar que o número de curtidas que uma pessoa teve em sua foto do perfil pode influenciar sua auto-estima e sua imagem corporal. Isso é uma questão muito séria!
Além disso, muitas neuroses se manifestam nas redes sociais, quando por exemplo, ficamos espionando a vida das pessoas visitando seus perfis ( ato conhecido nas gírias de internet como "stalkear", que vem do termo inglês stalk = perseguir).

        Qual é então o grande atrativo das redes sociais? Eu diria, sem sombra de dúvidas, que o maior deles é a possibilidade de construir uma personalidade, escolhendo cuidadosamente o que você compartilha, o que você twitta, e assim, decidindo que imagem você pretende construir de si próprio. Além disso, nos chats ou nos comentários, por não ser necessário olhar cara-a-cara uma pessoa, os internautas podem assumir diferentes personalidades, que podem ou não ser condizentes com a realidade. Esse ponto é crucial, tendo em vista que grande parte da interpretação de uma conversa humana na vida real provém do tom de voz, do contato, do olhar, dos gestos e expressões corporais. (Nesse sentido as conversas via skype e webcam são mais próximas do real.) O que dizer então da antiga prática de trocar cartas pelo correio? Ela também não limita a conversa humana à mera troca de palavras? De fato, poderia se dizer o mesmo dos correios, mas o que se deve ter em vista aqui são dois pontos: a utilidade da ferramenta e a sua limitação. A troca de emails, cartas, mensagens, ou seja lá o que for, é a única forma de manter contato com um amigo distante por exemplo. É de extrema utilidade. Mas isso não muda o fato de que esse tipo de relação jamais substitui o contato face à face no mesmo nível. E era exatamente esse o ponto que eu gostaria de chegar desde o começo do texto: a vida virtual como substituta da vida real é como uma bengala para um homem com dificuldade de caminhar. Há relatos de pessoas com fobia social que buscam nas redes sociais uma fuga da realidade, e há inclusive psicólogos que utilizam as redes sociais como forma de tratamento para pacientes com esse tipo de problema, o que nos dá indícios do poderio que a web tem de ser uma frágil, mas ainda assim tentadora, substituta da realidade.

Monday, January 12, 2015

STAND BY ME - 1986

CONTA COMIGO (STAND BY ME – 1986)


"Nunca mais tive amigos iguais aos que tinha aos doze anos. Jesus, será que alguém tem?"



Há vinte e oito anos era lançado nos cinemas, sob a direção de um então novato Rob Reiner ( também diretor de Harry e Sally, Fantasmas do Mississippi e Antes de Partir) o filme Stand By Me, com roteiro adaptado do conto "O Corpo", retirado do livro "As Quatro Estações" do escritor Stephen King, cuja história é também a sua obra mais pessoal: tudo remete claramente a uma fase de sua vida; seu irmão morto em um acidente de carro, o fato de o personagem principal ser um escritor famoso quando velho e diversas outras metalinguagens pessoais.

O filme conta a estória de Gordie Lachance (Richard Dreyfuss – Will Wheaton), um escritor, que recorda quando tinha entre doze e treze anos no verão de 1959, quando vivia em Castle Rock, Oregon, uma localidade com 1281 habitantes que para ele era o mundo inteiro. Gordie tinha três amigos inseparáveis: Chris Chambers (River Phoenix), Teddy Duchamp (Corey Feldman) e Vern Tessio (Jerry O'Connell). Chris era o líder natural deste pequeno grupo, mas a família dele não era boa e todo mundo sabia que ele ia se dar mal na vida, inclusive ele. Teddy era emocionalmente perturbado, pois o pai tinha acessos de loucura, inclusive chegou a colocar a orelha de Ted no forno. Vern era o mais infantil do grupo, quem os outros adoravam tirar sarro. Tentando achar um vidro cheio de moedas que tinha enterrado, Vern ouviu por acaso seu irmão e um amigo falando onde estava o corpo de um garoto – Ray Brower - que tinha ido colher amoras há três dias e nunca mais tinha sido visto. Os garotos queriam achar o corpo, pois vislumbravam a possibilidade de se tornarem heróis. Cada um deu uma desculpa em casa e partiram para tentar encontrar o corpo. Nenhum deles tinha idéia que esta viagem se transformaria em uma jornada de autodescoberta que os marcaria para sempre.

O filme é uma grande jornada de aprendizado, mas a ênfase fica na aventura - a aventura da amizade sobretudo- e em tudo o que para esses jovens é descoberta do mundo. Com um roteiro simples, dialogos articulados e cenas muito bem trabalhadas e produzidas o filme consegue transmitir todas as principais lições de vida do livro de Stephen King. Uma das provas disso é que o filme se passa em 1959, mas sua mensagem pode ser captada por qualquer um que tenha tido uma boa infância e sabe da saudade que bate de cada coisa que fizemos nessa fase tão especial de nossas vidas. Rob Reiner consegue ir além de colocar o telespectador como mero observador: Involutaria e naturalmente, ao longo dos acontecimentos, questionamos diversos pontos de nossas vidas através do olhar ingênuo e sincero dos personagens, e, de maneira autentica e poética,  submergimos numa fantasia aparentemente comum, mas que marcou como uma enorme aventura cheia de ação e suspense num mundo que fazia total sentido para nós. E mesmo sendo um drama com uma melancolia dedilhada, o filme se mantém em uma linha tênue de sensibilidade, onde os personagens caminham cuidadosamente dentro do perfil traçado originalmente pelo escritor e ao mesmo tempo, conseguem desenvolver-se com muita liberdade na caracterização do personagem de maneira visual.



O filme consegue ser tocante no ponto certo desde a sua cena inicial, quando Gordie, agora adulto, lê em seu carro a notícia sobre a morte do “famoso advogado” Chris Chambers, seu grande amigo de infância, e se emociona ao ver dois garotos andando de bicicleta, fazendo com que todas às suas lembranças da juventude voltem à sua cabeça em um fluxo de consciência. Isso não acontece conosco? Ás vezes nossas vidas andam tão cheias, que esquecemos o quanto é bom relembrarmos os bons momentos de nossas vidas.

Dentro desse ponto, somos atirados à memória de Gordie em sua conturbada infância. Mesmo com a falta de perspectivas quase que geral em relação à Gordie e seus amigos, juntos, eles eram felizes como adulto nenhum é. O filme mostra com eficiência o quanto é pura a amizade entre os jovens, marcada por inocência e sinceridade, que todos sabem que um dia irão se extinguir. Da mesma forma que as amizades de infância ficam marcadas, mas são muito difíceis de serem cultivadas até a idade adulta. Gordie, Chris, Teddy e Vern, mesmo com personalidades completamente diferentes, eles eram almas que se completavam. As interpretações, distintas e complexas, se mostram incrivelmente coesas dentro da história, cativando o observador. È impossível não se identificar com pelo menos um dos quatro garotos do filme, que por sinal, são interpretados com maestria pelos jovens astros. A química demonstrada entre eles é tão verdadeira, que parece que eles realmente são amigos de longa data.

A aventura de ir em busca de um corpo não encontrado pela polícia e a possibilidade de encontrá-lo e se tornarem heróis, é a representação dos sonhos de qualquer jovem de querer aparecer, de poder tudo. Algo semelhante a um aluno com fama de burro responder a uma pergunta difícil na sala de aula, em frente a todos. O jovem sente a necessidade de viver com emoção cada momento da vida, antes que seja tarde demais. Agindo da forma que lhes convém e achando que assim adquirem superioridade e independência, sentem todo o poder ao invadir um local proibido ou simplesmente fumar um cigarro. O filme mostra com delicadeza todas essas sensações de ser jovem.

Há um ponto interessante a ser aprendida, de ressaltar o espírito de ser criança que pode ser uma importantíssima lição para os jovens precoces de hoje, quando um dos personagens faz uma linda menção ao fato de ser criança, já que ele “vai viver apenas uma vez essa fase em sua vida”. E é isso mesmo, fazer coisas simples, com pouco dinheiro, mas que rendam milhares e milhares de histórias e saudades no futuro. Um dos grandes trunfos do filme é nos fazer sentir saudade de quando éramos crianças, de quando não tínhamos preocupações e como era gostoso simplesmente descobrir tudo, exatamente como seus personagens na história.



Contrastando com esse espírito de ser jovem e aproveitar cada momento dessa fase há a personificação de uma geração: no começo do filme, somos apresentados aos personagens enquanto eles fumam, jogam baralho e falam sobre coisas de gente grande. A pressa em crescer sempre foi uma das características dos jovens, mas ao traçar esse paralelismo, o filme ganha força principalmente ao provar a ingenuidade dos garotos no final, quando eles encontram o corpo (não estou estragando nenhuma surpresa, afinal, uma das primeiras frases do filme diz que eles realmente encontraram o corpo).

O diretor e os roteiristas conseguiram imprimir nos personagens dentro da história, a pureza e honestidade necessária para demonstrar que a aventura em busca de um corpo que, inicialmente, era um caminho para a fama, mostrando-se um caminho complexo, divertido e emocionate de autoconhecimento e maturidade. Esse é um ponto importantíssimo – não há a esperada consagração dos personagens, mas sim uma violenta sequencia para a realidade, para a morte, para a sensação de estarmos vivos e testemunhando a história. É um crescimento forçado pela situação, cru e real. Todos mudam com a experiência da viagem, principalmente nós, que estamos assistindo-a.

A mensagem final é tão simples e honesta, tão verdadeira e atual, que desmonta o espectador: A importância da amizade geralmente só é encontrada quando essa deixa de existir. E encontrar amizades sinceras, como as que temos quando jovens, fica cada vez mais difícil. Com uma beleza sui generis, o filme nos brinda com lindas paisagens e, ao fim, vemos um Gordie – agora adulto e escritor – lembrando-se com um amor genuíno o verão de 1959 e indagando a si mesmo, depois da morte de Chambers e do distanciamento natural de Teddy e Vern: "Amigos entram e saem de nossas vidas como pessoas que entram em um restaurante." E eles simplesmente se vão. A ultima frase de Gordie nos toca profundamente: "Nunca mais tive amigos iguais aos que tinha aos doze anos. Jesus, será que alguém tem?" De fato, encontrar amizades sinceras é algo bastante improvável. Nem toda amizade é eterna, principalmente as de infância que cicatrizam, mas são difíceis de serem cultivadas até a fase adulta. Nenhum filme retratou de forma tão gostosa como é época em que somos mais jovens, aprendendo a conhecer o mundo e quanto ver as amizades nessa época são as mais verdadeiras. 

Cólera obscura (conto)

Lorente era um homem bom. Acordava cedo todos os dias para ir ao trabalho. Era impecável. Carlos o invejava, talvez porque ele nunca parecia se abalar. Era como um tronco firme de árvore, que mesmo após a enxurrada estava ali de pé, com disciplina, com rigor, com postura, e compostura. A paciência era a maior de suas virtudes, ele sabia, esperava o momento certo. Não fazia nada por acaso, tudo tinha um porque de ser. Pobre Lorente. Sua esposa, Fátima, achava que Lorente era desligado demais, que era desapegado das pessoas. Queria que ele fosse um pouco mais possessivo, afinal, como ela iria saber se ele de fato a amava, se ele não sentia nem sequer um fio de ciúmes?

Naquele dia, Lorente estava se sentindo indisposto, cansado. Seu corpo, febril e mole, se arrastava, escorregadio, da cafeteria até seu escritório. Em sua mesa, um retrato de Fátima, No computador, uma série de emails o atormentava, com questões e problemas que transitavam sem parar buscando sabe-se lá o que. O homem, atormentado, pesado e febril, naquela tarde, queria se deslocar para casa. Era cedo. Contudo, ele não podia mais estar ali, tinha uma vontade terrível de descansar. O sol ainda estava alçado no céu, quando ele dirigiu até sua casa em seu sedã preto. Quando chegou, abriu a porta sorrateiramente, e viu que os corpos esguios estavam lá. O mundo inteiro se congelou, apenas o tic tac do relógio se fazia ouvir.

De repente, uma explosão de cólera! Fúria, espasmos. Os corpos unidos, de mulher e homem, espichados na cama. Todos se olharam, uns ainda ofegantes, outros ficando ofegantes. O olho arregalado do pobre homem nunca havia estado dessa forma, parecia que ia saltar-lhe das órbitas. Por um segundo, por um instante, onde estava Lorente? Onde estava aquele Lorente disciplinado, que fazia a coisa certa sempre que possível? Era impossível! Porque diabos um castiçal? Porque uma casa moderna do século XXI teria um castiçal?


O castiçal foi comprado na época em que se mudaram para aquela casa. Combinava com os móveis de madeira. Fátima gostava de ter decorações barrocas. Do barroco, veio o dualismo, e a expressão horrenda no rosto de Lorente. Quando Fátima se deu conta era tarde demais, o castiçal havia sido violentamente chocado à cabeça de Carlos. O sangue tinha um gosto hediondo, que diabos! Lorente não matou a mulher, deixou a viver. Para que ela sofresse mais com a imagem do cadáver do amante. Na cabeça de Lorente a nona sinfonia de beethoven tocava, como no filme Laranja Mecânica. Psicopata. O psicopata nascido da disciplina. 


Não... Foi apenas um sonho! Um sonho terrível! Despertou suado, enquanto seu coração palpitava a mil. Qual a distância entre o sonho e a realidade? Pensou. Precisava mudar.

Friday, January 9, 2015

O Novo Colaborador

“No velho e perigoso oeste, a vida de três homens com interesses similares e objetivos diferentes unem-se e acaba por modificá-los um ao outro, na jornada ofegante aos confins do oeste e ao extremo da violência.”

Talvez a sinopse do filme Três Homens em Conflito, do extraordinário diretor Sergio Leone, faça juz aos objetivos do blog, o que espero com muita sinceridade. O fato é que o convite do "velho" amigo Vinicius, um dos editores do blog, foi surpreendente. Eu gosto muito de livros. A leitura é como uma viagem expressionista e introspectiva por vários mundos criados sob as óticas mais excêntricas, intimidadoras ou bem humoradas. Tenho algumas lembranças de minha infância, quando aprendi o alfabeto e comecei a ler minhas primeiras palavras. O primeiro livro que li completamente foi O Cachorrinho Samba, da escritora brasileira Maria José Dupré. Em um espaço de apenas três meses eu simplesmente li toda a coleção – cinco livros – e para alguém da primeira série do ensino fundamental foi um verdadeiro recorde! Assim, começava minha caminhada no mundo dos livros. No fundo, observo que talvez a literatura tenha se tornado como um refúgio para mim, afinal, a literatura, como disse com muita propriedade o amado escritor Fernando Pessoa, é a maneira mais agradável de ignorar a vida.
Faz muito sentido para mim.
Mais de vinte anos depois, começo minha grande aventura do mundo da escrita. Mas escrever é para poucos e, como diz o grande escritor Vargas Lhosa, "Escrever é muito difícil. O bom é ter escrito."

Fiquei então, imaginando no desafio que seria para alguém que se diverte lendo três ou quatro livros ao mesmo tempo e cuja escrita não reflete seu pequeno conhecimento literário, escrever e compartilhar suas idéias Sinto que liberar a pessoa que sou é um negocio perigoso. Talvez eu seja um malandro rebelde de sorriso maroto no rosto com mais freqüência do que percebo; Não me curvo com facilidade debaixo de padrões. Nunca me senti parte do grupo que participo. E talvez eu goste que seja assim. Um pouco de rebeldia é gostoso. Talvez haja um tipo bom de rebeldia, um brio, uma coragem de viver autenticamente, mesmo que o preço seja o de não se encaixar, talvez seja a vontade de sonhar. Seja o que for, eu gosto disso.

A questão então é, sobre o que escrever no tão distinto blog?
É uma tarefa relativamente fácil trocar palavras, virgulas e pontos em um prisma levemente intimidador dentro de uma cosmovisão particular, sem contundo, ter a pressão do dever do convencimento sobre tal particularidade. O difícil mesmo, é interpretar o silêncio. 
Talvez o assunto não importe muito. Talvez o mais importante seja a maneira com que faço isso.

Me vem à mente, então, um texto do grande escritor brasileiro Luiz Fernando Veríssimo: “ A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo, dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.” 

Afinal, sou assim mesmo, deixo as coisas confusas e escrevo linhas que não fazem sentido.

Compartilharei geralmente sobre filmes; algumas vezes também sobre minha cosmovisão e suas consequências. E, mesmo com interesses similares e objetivos distintos, tenho a estranha certeza que essa parceria vai gerar muito crescimento aos três homens em conflito que escreverão nesse pequeno espaço dentro de um universo virtual gigantesco. 

Então, aproveitem o dia. E façam suas vidas uma coisa extraordinária.

Oh capitão, meu capitão!