Tuesday, July 14, 2015

Parte 01

I

Sabe qual é o problema? As pessoas simplesmente não ligam. Quando não odeiam, simplesmente não ligam, não há uma mínima preocupação com o que acontece ao seu redor. Preferem ser indiferentes em seus próprios entendimentos, em sua própria cobiça. Eu sempre gostei de reparar nas pessoas e é incrivelmente verdadeiro como os rostos das pessoas conversam sem, sequer, uma única palavra. O que é engraçado – e algumas vezes, arrepiante – é observar a reação das pessoas quando uma notícia ruim sobrevém, ou quando uma coisa boa acontece inesperadamente. É intenso observar, por exemplo, uma mulher que acaba de saber de sua gravidez quando o médico já havia lhe dito para conformar-se com seu único filho de treze anos, ou então optar pela adoção. E assim, do nada, o médico diz as boas novas deixando-a inacreditavelmente perplexa. Lagrimas saem naturalmente acompanhando um sorriso assustado e nervoso, que logo dá lugar a uma deliciosa gargalhada e gritos de felicidade, junto com abraços, beijos e afagos. É quase mágico. Amedrontador é observar a reação de um estuprador que, friamente, confessa um crime terrível ocorrido há apenas alguns meses. Ele simplesmente se manifesta, contando detalhes horríveis e sujos que ninguém sabia de sua vida, mas seus olhos exibem uma calma inimaginável. Sua respiração é pautada, tranqüila, como se estivesse contando uma história fictícia, como se ele fosse o mocinho. A sua reação é tão terrível que ele deixa suas emoções fluírem naturalmente, e até esboça um sorrisinho de canto de boca, quando fala nos detalhes e pronuncia palavras como “foder”, “amedrontado”, “fraco”, “indefeso”. Parece estar se divertindo, enquanto as poucas pessoas ao seu redor estão simplesmente petrificadas. Ele não repara, mas um deles está chorando, simplesmente derrubado, dolorido até a alma por escutar sua confissão. Mas o mal continua dentro das pessoas e em muitas vezes, disfarçando-se do bem, do politicamente correto. Meu Deus, quantas vezes eu vi o mal disfarçado de liberdade, de preconceito, de diversidade. Você simplesmente olha as pessoas com muita atenção, bem fixamente nos seus olhos ,e por um instante, você percebe qual a realidade da vida: não há no mundo mal maior do que aquele que jaz dentro de todos os homens. 


Mas eu sou um observador; então eu sempre tentei imaginar a minha reação antes de certos fatos acontecerem. Como um otimista, comecei a imaginar quando determinados fatos simplesmente pousam de uma maneira inesperada em nossas vidas, tocando nosso ponto mais fraco, e todas às vezes eu acreditei que as pessoas – mesmo que fossem unicamente as próximas – reagiriam de uma maneira, no mínimo, com um sentimento de assistência. Mas as pessoas – salvo raras exceções – não querem apenas tocar no seu ponto fraco, observar sua reação e ajudá-lo da maneira que for possível. Elas não querem saber o porquê do ponto fraco ou do nosso comportamento conseqüente. 

Não.

Elas simplesmente não ligam. A indiferença destrói tantos com tanta facilidade quanto o ódio. Quantas vezes, quantas vezes meu Deus! Você faz revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas te olham de maneira esquisita, sem entender nada do que disse que eram tão importantes que você quase chorou quando estava falando. Elas querem martelar isso em você. Querem fazer com que você se sinta culpado, inferior e miserável; e se deleitam quando observam sua autocomiseração. Elas arrastam você para baixo. A verdade é que é muito mais fácil apontar e rir, ou mesmo ser indiferente, do que usar seu tempo com alguém desconhecido. Então o seu segredo fica lá guardado, na escuridão, trancafiado. Não por falta de um narrador. Mas por falta de alguém que compreenda. E eu vivi tão proximamente a essa podridão moral e espiritual das pessoas, mas convivi também com outras que tinham um dom, uma dádiva: Mesmo não compreendendo, elas faziam questão de estar presente, de escutar seus problemas, de amar quem você realmente é, de amar aquela criança indefesa e inocente que nunca deveria ter dado espaço para aquele adulto miserável. Mas, meu Deus, são tão poucas, tão raras, e às vezes as alguns esperam angustiadas, durante uma vida inteira, por pessoas assim. 

(...) Continua.

Sunday, July 12, 2015

O "Livre arbítrio" - Criadores de circunstâncias ou produtos das circunstâncias?

         Há muito tempo que pondero sobre as falácias e dilemas que envolvem teorias que citam o assunto do "Livre arbítrio". Resumidamente e simplificadamente, o livre arbítrio seria a crença de que os seres humanos tem total controle sobre suas ações: a chamada "escolha". Mas há muitos dilemas envolvendo teorias que apoiam esta crença. O primeiro deles é que, empiricamente, se percebe que o ambiente afeta as decisões tomadas pelas pessoas. Pessoas pobres roubam mais, pessoas depressivas e ansiosas tem mais vícios em drogas, pessoas tem reações extremas depois de sofrerem certos "traumas psicológicos". Ou seja, acreditar num livre arbítrio pleno seria ignorar toda a prova empírica observável a qualquer um envolvido na sociedade. Experimentos realizados por nazistas e realizados espontaneamente em presídios também demonstram o quanto o poder de escolha é limitado às experiências e aos ambientes aos quais os seres humanos em questão foram submetidos.

         No entanto, a crença de que as escolhas são totalmente induzidas pelo ambiente ao qual o indivíduo é submetido também encontra diversos problemas. Filósofos existencialistas e psicólogos contemporâneos, como Sartre e Viktor Frankl já perceberam que existe muito mais na escolha realizada por um indivíduo do que meramente o resultado de certas variáveis. Por que determinados indivíduos no campo de concentração de Auschwitz continuaram de cabeça em pé, tentando encontrar um sentido para sua vida, ao invés de desistir, como outros fizeram? Por que gêmeos idênticos, com experiências muito semelhantes de vida, podem fazer escolhas tão distintas? Existe muito debate e nenhuma conclusão acerca desse tema. No entanto, para mim é claro que existem dois "espaços psicológicos" que nos ajudariam a entender melhor esta questão e, talvez, encontrar uma resposta intermediária.

Podemos definir o microespaço como o espaço onde as coisas realmente acontecem: seria como a física quântica. Seria o espaço onde realmente o ambiente e experiências tem grande influência em nossas decisões, e onde outras variáveis indecifráveis até este momento influenciam nas tomadas de decisões. Este espaço é incompreensível em sua totalidade, e além de utilizar evidência empírica como provas estatísticas, ainda não podemos levar seus dados muito a sério.

Já o macroespaço seria como a física newtoniana: ela não é uma definição da realidade; antes, é uma abstração imensa dos fatos, mas funciona para explicar grande parte dos fenômenos materiais matematicamente. O macroespaço seria a tomada de decisão feita pela pessoa, sem levar em consideração fatos anteriores que ela possa ter experimentado que a levaram a escolher por uma ou outra decisão. Seria o espaço da definição do "Eu", e da tomada de responsabilidade. Quem fez essa escolha fui eu, e eu tenho que tomar responsabilidade por isso, arcar com as consequências dessa decisão. Nesse espaço, o ser humano é, sim, criador do seu destino, e o livre arbítrio existe.

E de que serve isso? Todas as crenças religiosas que conheço acreditam em destino, de uma forma ou de outra. Cristianismo e Islamismo nem sempre pregam a predestinação (Apenas algumas linhas de ambas as religiões), mas a mera crença de um Deus onisciente e onipresente pressupõe a crença de um destino pré-fixado. Crenças de origem oriental costumam utilizar valores semelhantes ao Karma ou ao Tao em quase todas as suas formas. O que me diz uma coisa: a humanidade sempre acreditou, de uma forma ou de outra, que suas escolhas não importam. Que existe algo superior que já definiu como as coisas acontecerão, que somos impotentes para moldar nosso destino. De certa forma, linhas behavioristas da psicologia são uma evolução desses pensamentos religiosos para dentro do campo científico.

No entanto, apesar de ter sido uma constante no pensamento religioso e bastante predominante no pensamento científico a impotência do ser humano enquanto criador de seu destino e de suas decisões, sempre existiram pessoas, pensadores, poetas, cientistas, teólogos, em todas as épocas, que acreditaram que o ser humano é, sim, capaz de criar suas decisões. De moldar seu destino. De não ser um produto ou uma criatura das circunstâncias, e sim de ser o criador das circunstâncias. E o mais interessante: este tipo de pensamento esteve, por muitas vezes, inserido na ideologia de pessoas de "sucesso" (Escreverei alguns pensamentos sobre a definição de sucesso num post posterior. Por enquanto, vamos assumir que ser alguém de sucesso é ser alguém que consegue realizar objetivos colocados para si próprio), como Thomas Edison, Leonardo da Vinci, os Médici, Hitler, Gandhi, entre outros. Percebam que não estou colocando exemplos necessariamente de pessoas que fizeram coisas boas, mas que obtiveram sucesso em realizar o que tinham como objetivo.

Portanto, talvez acreditar, dentro do macroespaço psicológico, que sou capaz de tomar minhas próprias decisões e, assim, moldar meu destino, apesar das circunstâncias, pode ser um ingrediente fundamental para completar qualquer objetivo, por mais que, internamente, no microespaço, saibamos que nosso "livre arbítrio" é bastante limitado. Digo TALVEZ, por ser uma reflexão. Digam o que acham =)

Thursday, June 4, 2015

A volta do que não foi

Amigos, quero muito voltar a postar aqui. Mas preciso me reacostumar a escrever, há muito não escrevo por hobby. Mas agora estou com tempo novamente, e em duas semanas, entro de férias da faculdade, então voltarei a postar de vez. Até lá, deixo um micro-conto que escrevi há muito tempo, mas que ainda me traz muitos sentimentos á tona.

Passeio Matinal

"Cacete de agulha!" - Anônimo no youtube

Quero um buraco.

Um buraco bem grande.

Aliás não. Quero um buraco pequeno e aconchegante, um que seja da exata medida.

Mas não existem buracos de exata medida, pensei com desgosto.

Um buraco imaginário então, foi o que comecei a elaborar. Fechei os olhos até que finalmente, oh! bato sete palmas de alegria e estremeço de prazer. Este é o buraco exato. Aconchego-me com ternura e potência dentro de minha caverna escura, minhas quatro paredes de plenitude e solidão. Uma voz baixa, no entanto, me chama. Uma voz fraca e débil, como um pequeno pássaro de asa quebrada. Inquieto-me e irrito-me com a perda súbita da pseudo-epifania vigente. Abro os olhos então e, como Adão, sinto vergonha de minha nudez. O horror toma conta de minha mente, só quero voltar para o buraco.

- Venha, diz uma voz autoritária, venha, diz outra vez. A janela me chama, busco a impossibilidade de repetir o fenômeno da quietude do prazer. Da solidão. Percebo-me hipnotizado e guiado pela voz, até que o pássaro parece recuperar suas asas e, com muito esforço, grito: Não! Não, não, não! Levanto-me da cama bruscamente. Estou atrasado para um compromisso! Pensei, fingindo-me esquecer de tê-lo cancelado previamente. Agarro-me com todas as forças a esta desculpa e saio de casa, inseguro ainda. Perco-me em labirintos e bosques, e logo percebo-me passeando entre corredores tranquilos no largo do campo grande.

        A paisagem me é familiar e sinto-me protegido de algum modo. Foi quando percebi, com súbito horror e surpresa, que o único que chegava perto de me compreender era o meu eu. Ele era o único para quem eu existia. Mas como podia ser, que poderia querer eu com meu eu? Meu eu fraco, covarde, repleto de absolutos. Só poderia querer mesmo racionalidade, e olhe lá! E logo agora que eu havia finalmente adquirido controle sobre meu corpo e mente, agora que a besta adormecida soltava suas amarras como o pássaro débil que ganhara asas, logo agora, a luz incide sobre este fato inquietante.

        Mas como o tempo passa! Pensei distraído, notando a mudança no ambiente ao meu redor. Percebo-me num ônibus lotado, passando pela Barra. As ondas do mar parecem refletir minha alma de forma incômoda. Sou como um pequeno peixe, pensei, que insiste em ser peixe ao invés de deixar-se ser mar. Em ser algo e não em ser, só. E ainda luta com bravura contra as ondas! Entre as cabelos ondulados à minha frente e o mar, percebo uma enorme distância. Então é por isso que as pessoas fazem. Ser é difícil, e, principalmente, muito perigoso. Fazer é fácil e confortável. Mas que havia eu de me preocupar,  afinal? Tinha pouco mais de vinte anos, somos tão jovens. Há muito para se fazer na vida. O ser, deixamos pra lá, não tem importância, este nós deixamos para os filósofos e poetas, e todos sabem que fim tem os filósofos e os poetas. Mas será que fui escolhido? Se o tiver sido, não tenho escolha. Posso lutar contra marolas mas não contra a imensidão do mar. Só o buraco é livre dos signos. Ah, como o buraco me fascina, me atrai e me enoja, pensei com asco. Asco de quê? Não sei. De ser, talvez, ou será medo? Cacete de agulha.

Wednesday, June 3, 2015

A LISTA

— Cara, mas a bíblia é muito doida. Fica falando de graça, perdão e reconciliação, de um Deus amoroso e tal. Mostra Jesus perdoando todo mundo, a torto e a direito, com aquela frase tipo, "alguém te condenou? eu também não te condeno" e essas coisas todas. Aí, do nada, aparece uma lista de condenados, gente que não pode entrar no Reino de Deus. Tem de tudo lá, mentiroso, ciumento, fofoqueiro e sei lá mais o quê. É uma loucura isso.


— O que gera tanta confusão é o histórico, meu velho. A gente tá imerso em dois mil anos de cultura cristã. O ocidente todo está. Não tem um que se escape. Dois mil anos de rituais, doutrinas, hierarquias e medos. A gente já lê a bíblia condicionado. Até ateu faz assim, porque cristianismo não é só religião, fé, crença; cristianismo é cultura ocidental. O que nos chama a atenção é o que a igreja oficial gritou do alto dos púlpitos esse tempo todo. E a mensagem oficial é política. Tem a ver com controle de massas, com jogos de poder, com grana, com vaidades de todo tipo. Os dois mil anos de discurso oficial nos tornaram cegos para o fato mais assombroso da mensagem bíblica. O que não somos mais capazes de ver é que a bíblia é toda ela subversiva. Mas é um livro inserido na história e que precisa ser lido entendendo esse vínculo profundo de cada parte dela com o tempo em que foi escrito. A lei de Moisés era um grito de justiça e igualdade atravessando a opressão das lanças e escudos da idade do bronze. Séculos depois os profetas levantam a voz relendo a lei sobre novos olhos, reinterpretando a lei e confrontando reis e sacerdotes. "Misericórdia quero e não sacrifícios", é a reformulação do grito da lei para uma nova geração. Jesus lendo Isaías na sinagoga é o novo grito, agora encarnado, agora definitivo.

— Mas a lista de condenados é posterior a Jesus.

— É verdade. Mas veja bem. A história da bíblia é a história das interpretações humanas a respeito da revelação discreta de Deus na alma confusa do homem. Primeiro Abraão, depois Moisés, depois os profetas, cada um reinterpretando e resignificando a mesma mensagem de graça, perdão, reconciliação, de um Deus amoroso, como podia, a seu tempo. Aí vem Jesus, o Emmanuel, o Deus conosco, a encarnação desse Deus que vinha sendo interpretado durante toda história. Depois de Jesus, começa tudo de novo. Novas interpretações e resignificações dessa mensagem, com a diferença que, agora, a mensagem é observável, tem carne e osso. Mas as reinterpretações prosseguem. Paulo e Tiago, por exemplo, reinterpretam-se a tal ponto que um parece contrariar o outro às vezes. Lutero queria tirar a carta de Tiago da bíblia porque ele reinterpretava e resignificava Paulo. Mas mais do que isso, Paulo reinterpreta e resignifica a si mesmo em diferentes situações. Num momento somos todos iguais e já não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher - coisa que é subversão ainda hoje, imagine na época - em seguida as mulheres devem se calar porque não é bom que falem em público.

— Mas e a lista?

— Não há uma lista de condenados, amigo. Pelo menos não como você imagina. Você lê como se houvesse porque lê a partir da cultura cristã de dois milênios. Para Jesus a coisa é simples. O Reino de Deus é como um rei que queria cobrar as dívidas dos seus súditos, é o que diz aquele contador de histórias. Porque, não custa lembrar, a bíblia é essencialmente um livro de histórias, e histórias tem muito mais a dizer do que doutrinas a ensinar. O Reino é como um rei que, para cobrar uma dívida, chama um súdito sabendo que o que ele deve é muito maios do que jamais poderia pagar. É o reino de um rei que vê o súdito olhar nos seus olhos desesperado porque sabe não ter como pagar, e crê que há uma pena natural para quem não paga. Mas é, acima de tudo, o reino de um rei que com voz mansa e olhar amoroso derrama graça, perdão e reconciliação sobre o devedor. Anula o débito. Já não há nada a ser pago. Assim é o Reino de Deus, é o que afirma Jesus em sua parábola. Acontece que o súdito perdoado também tem alguém que deve a ele, e a história prossegue. E do ponto de vista desse súdito, perdoar não é algo aceitável. Ele aceita o perdão, mas não perdoa. Receber e admissível, mas oferecer é ofensivo. O sujeito manda prender seu credor e executar a dívida. Mas o reino é lugar de perdão, graça, amor e reconciliação. Essa é a mensagem. É lugar de perdão e graça mútuos. Basta ao discípulo ser como o mestre é o mesmo que dizer basta ao súdito agir como o rei. A sua confusão, amigo, é entender que a lista de condenados indica gente que não pode entrar. Não é isso que indica a lista. O ambiente do Reino é perdão, graça e amor. Essa é a atmosfera, o ar que se respira nesse Reino. Esse é o reino sussurrado em toda bíblia, de capa a capa. A lista não indica quem não pode. Indica quem não quer.

Do brother Tuco Egg - atrilha.blogspot.com - um dos melhores blogs da atualidade, sem exagero nenhum!

Tuesday, June 2, 2015

A morte do instante anterior

Mergulhado no momento, é ai que se pode fazer uma mudança radical no pensamento.
Mas a pessoa radical deve ser leve, sutil, para que ai não se possa achar tensão.

Momentaneamente mergulhado, é ai que se faz a imersão para renascer. 
Ressurgir depois de longas noites no inconsciente inóspito e frio.

Quem é afinal o dono da casa? Eu, o outro, Deus, ou o herói.
A casa deve estar vazia. Não há dono algum por direito.

Porque tememos tanto esse vazio, o que há ai?
Há ai um abismo sem fim, que toca a morte.

Só é preciso um pouco de paciência, 
Como distinguir o caminho certo?

Não há caminho certo,
Mas há muitos falsos.

Falsos, Lá-depois.
seja Aqui-Agora.

E tudo chega
a um fim.

Ame
mais

rip

Friday, May 15, 2015

Entrega, o ato de buscar a si-mesmo.

A coisa mais importante que o masculino pode aprender com o feminino é a entrega. Também o feminino pode aprender algo importante com o masculino: o controle. Mas já que vivemos num Ocidente Masculino, considero mais importante falar sobre o elemento feminino, para equilibrar a balança. A natureza, a união cósmica, o destino, o sagrado, são coisas que só podem ser vivenciadas se a alma está entregue ao Novo de tal forma que as amarras da tradição e do passado são totalmente desfeitas. 


Durante muito tempo, e ainda hoje, os monges, os Zen-budistas, os taoistas, poetas, artistas, e até mesmo alguns filósofos, tem falado sobre esta entrega. As mentes mais introspectivas e que melhor se conheceram parecem apontar para o que C.G Jung chamou de processo de individuação, ou encontrar a si-mesmo. O que seria isso: encontrar a si-mesmo? Para falar desse encontro, precisamos falar do desencontro que é perder-se a si-mesmo. Nascemos originais, no entanto, a forma como a sociedade está configurada nos torna mais-do-mesmo, ou como diz a música do Pink Floyd “apenas mais um tijolo na parede”. Nossos sonhos tornam-se sonhos do outro, sonhos iguais, sonhos massificados. O Ego emerge, na relação com o outro, e ao tentar evitar desagrados acaba reprimindo grande parte da nossa personalidade original e vivemos sobre a máscara da Persona, representando uma personalidade muito limitada. Se na relação com o outro, vivêssemos a angústia ela duraria pouco, mas queremos nos poupar, queremos evitar, fugir, mentir, e assim evitando encarar os fatos, prolongamos a angústia. Perder-se é portanto consequência da vida em rebanho, da massificação, dos sonhos dos nossos pais, do condicionamento, de seguir a linha. O indivíduo que rejeita essa trajetória pré-estabelecida socialmente para ele é um rebelde! Ele está seguindo o seu destino, em direção ao self (si-mesmo). Para tanto, é preciso a entrega e aceitação. Não estamos falando a respeito de aceitar as injustiças do mundo, estamos falando da entrega interior. Não maquiar as emoções, olhar para elas. Se estiver com raiva, admitir a raiva, olhar para ela. Não matar, mas admitir a raiva. É diferente. Do contrário o indivíduo não irá conhecer-se a si mesmo, e continuará projetando sua sombra no mundo e nas pessoas ao seu redor.



" As coisas que vemos são as mesmas que temos dentro de nós" ( Hermann Hesse)

Wednesday, March 18, 2015

Manifestações 2015, Eleições e Impeachment

Devido ao clima que paira no ar em todo país, me sinto impelido a escrever algo a respeito das manifestações desse ano. Tal motivação talvez tenha surgido da conversa com um senhor que me indagou se eu havia ido aos protestos de Domingo. No momento em que eu respondo que não, surge uma estranheza no diálogo com o senhor; começa-se a questionar sobre o grau de comprometimento que eu tenho com o bem-estar da população, e começa-se a repudiar minha atitude de ter permanecido em casa. Num dado momento da conversa, este senhor me pergunta o que eu tenho feito para melhorar o país. Eu devolvo a pergunta. E ele me sorri meio que querendo dizer: " Eu estava lá". 

Essa pequena cena, me fez pensar um pouco sobre o valor que essa participação política tem na vida de muitas pessoas, e sobre o porque fui rechaçado, não só nesse meu pequeno relato, mas em outros acontecimentos semelhantes também. Em verdade, a maior parte das pessoas sente que está cumprindo seu dever como cidadã e que está promovendo uma mudança no país pelo simples fato de ter escolhido entre alguns candidatos numa urna. Não vou esconder minha posição a esse respeito: é muito difícil votar. Há duas opções, o fantoche da esquerda, ou o fantoche da direita... Ou ainda... como satiriza a série South Park, há duas opções: O Sanduíche de Merda, ou o Babaca Inútil. Aliás, vale a pena lembrar que em South Park, o personagem com "traços anarquistas" Stan, foi banido da cidade por ter abdicado de seu voto. Conforme nos alerta George Carlin "de onde diabos pensamos que os políticos vêm?" Eles vêm de nossas escolas, de nossas famílias, de nossas Igrejas. Então se há algo errado com eles, é porque deve haver algo errado conosco. Nenhum político, repito NENHUM político se elege sozinho. É a população quem o elege, e as atuais  manifestações demonstram que o povo esta reivindicando seu poder. Há algo errado com o governo petista? Sem dúvidas, mas isso não significa que vivíamos as mil maravilhas nos governos anteriores. Portanto, obviamente, a reforma política tem que ser muito mais profunda do que uma mudança presidencial. Não se trata de mudar as peças, se trata de mudar o sistema. É aceitável um sistema político onde a corrupção é possível e fácil? Obviamente não. Não basta um Impeachment. Meu desprezo pela política do nosso país, psicologicamente, é tão significativo para mim quanto as manifestações para o senhor que mencionei no início desse texto. Imagine a repercussão de uma eleição onde ninguém votasse. As pessoas iriam ter que se reunir, assim como agora, para discutir o futuro do país. O voto nulo é a maior demonstração de que alguém não leva a sério a piada que está sendo contada pelos políticos. 


Outro ponto importante: Política não é um campeonato de futebol! Se você pensa que o seu partido é o seu time, bem... talvez seja um campeonato pra você. Aliás, só de você ter um partido num país como esse, talvez seja um campeonato para você. Confira nesse video o que acontece quando se trata política como o futebol:   

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https://www.youtube.com/watch?v=BNKMCVLv4Ks

Quando as pessoas tem um partido definido, o diálogo entre as partes é muito dificultado, e cria-se uma tendência a ver apenas um lado da moeda. Pelo menos é isto que tenho observado nos "devotos" dos mais variados partidos. Nesses casos, acusações são comuns, do tipo "alienado", "elitista", ou pior, "nordestino analfabeto".  


Conclusão: Os brasileiros tem todo o direito de se manifestar, e isto pressiona o governo a efetuar algumas mudanças, Entretanto, é equivocado supor que alguém que não foi as manifestações está alheio ao que esta acontecendo no país. Não fui as manifestações porque não é meu modo de agir. Acredito nas micro-revoluções tanto ou mais do que nas macro, uma pequena atitude de uma pessoa perante a vida, pode ser suficiente para colaborar com o bem-estar social, tais como honestidade e um trabalho que produz resultados sociais, por exemplo. Esta mudança individual, em larga escala, pode ter mais efeito do que as revoluções coletivas, uma vez que nessas últimas há sempre alguém tentando tirar proveito do movimento das massas. Reitero a indagação de Olavo de Carvalho: no tão bem intencionado socialismo, o militante após concluir sua revolução simplesmente irá para casa descansar e aproveitar o comunismo ou ele está em busca de uma posição de destaque e poder? ( No lugar de socialismo, pode ler-se fascismo, direitismo, ou o ismo que lhe convir).