Wednesday, May 21, 2014

A criatura e os humanos (conto)


Sophia sempre costumou ser uma garotinha muito esperta. Sua curiosidade típica da infância a ajudava a aprender algo novo todos os dias. Numa certa ocasião, quando tinha 7 anos, ela começou a enxergar coisas que as pessoas normais não viam. É sobre essa primeira visão que trata essa história. Daquele dia em diante Sophia não parou mais de ver. Tudo começou em um dia de primavera. Sophia estava no carro com sua mãe voltando de um passeio. Em determinado momento do trajeto Sophia olhou através do vidro fumê do veículo e viu algo se rastejando na rua. Uma criatura deplorável, que se mexia mancando e curvando-se a cada passo. Provavelmente era um animal, como aquele esquisito que ela vira no zoológico, tinha garras e muitos pelos espalhados pelo corpo todo. Além disso parecia doente, como se tivesse se alimentado de comida estragada nos últimos meses. Os olhos do estranho ser cruzaram os olhos de Sophia, e foi algo tão natural, que Sophia teve certeza de uma série de coisas. A primeira delas, é que sua mãe não conseguia enxergar a aparição. A segunda coisa, o bicho tinha alma, sim, aquele olhar não é um olhar de pedra, é um olhar de coisa com alma. Talvez fosse uma alma. Lembrou-se, certa vez seu primo lhe contará uma história de espíritos para meter medo. Disse que quando as pessoas morrem elas se tornam almas vagando pela terra até encontrarem seu caminho. E que algumas dessas almas são brincalhonas e maliciosas, perturbando a noite e o dia dos vivos. Refletiu, mas esse não era o caso da criatura em questão, não era uma alma. Notava-se as gotas de suor em sua pele, os dentes projetavam-se para frente numa constante ameaça de ataque, até uma criança de 7 anos poderia ter certeza de que estava viva. Essa foi a terceira certeza. Não era um ser do além! A quarta certeza é sem dúvidas a mais impactante, pois põe em xeque tudo o que Sophia aprendera sobre a vida, seja o que a professora ensinara, ou a mãe. A realidade é que... 

Deixe me contar isso de outra maneira... Um instante depois de os olhares se encontrarem, o veículo parou bruscamente. Acima do carro a luz verde se apagara e a luz vermelha acendera. Sua professora explicara no dia anterior que isto era um sinal para os veículos pararem. No momento em que o carro parou a aberração se aproximou em longas passadas, como um leopardo indo de encontro a um gnu. A mãe de Sophia começou a ver, e segurou firme no braço da filha. Quanto mais próximo estava mais nítido ficavam seus contornos: sua cabeça era achatada, seus membros compridos e esguios. A coisa bateu no vidro do carro. Momentos de tensão para Sophia e sua mãe. O coração da garota disparou. De repente, a mãe de Sophia abaixou o vidro, e estendeu a mão com algumas moedas. Era humano. 

Wednesday, May 7, 2014

Uma introdução ao Tao

A arte do Wu Wei        

O Wu Wei é um dos ensinamentos centrais da filosofia taoista, cujo valor é inestimável para aqueles que o compreenderam. O taoismo é considerado aqui no ocidente uma religião ou filosofia, mas sua essência é bastante diferente das filosofias ou religiões ocidentais. Eu descreveria o Wu wei, como um estilo de vida que ameniza o stress de nossa rotina, traz paz, diminui a preocupação com o futuro, e disciplina nossas ações. Contudo, as palavras disciplina e ensinamentos, tem no oriente uma natureza totalmente diferente do sentido usual no ocidente: confusão causada pelo modo como fomos educados aqui no ocidente! A nossa educação tem sido baseada na repressão, no esgotamento da energia, num despejo de informações vindas do professor, na obrigatoriedade em cumprir o conteúdo programático e principalmente na existência de regras e proibições rígidas. Mas não é a respeito desse tipo de ensinamento que o taoismo trata, e sim a respeito da autonomia. Como pode alguém ser realmente disciplinado se não tem autonomia? A disciplina do ocidente é como a disciplina militar, ela molda o comportamento, mas também submete a autoridade. E quem está submetido a autoridade nunca está livre. Está sempre tendo que obedecer leis intransgressíveis. E essa autoridade pode ser externa, ou estar internalizada. Por isso, é muito difícil para o ocidental contemporâneo compreender o Wu wei, pois ele também irá tentar transforma-lo em uma lei.   
O taoismo, assim como a psicologia, é o estudo da mente humana, contudo, por uma via totalmente diferente. O termo chinês "Wu wei" significa literalmente não agir. Enquanto a psicologia intervem na mente, o wu wei apenas a "deixa estar", por assim dizer. O que seria esta não-ação? Ao contrário do que possa parecer não significa ficar inerte e morrer de fome. Eu poderia dizer que Wu wei significa você não lutar contra sua natureza. Muita energia é dissipada nessa luta. Mentimos diariamente a respeito de quem somos, usamos uma máscara toda vez que saímos de casa ( Persona). Contudo, estou quase certo, que não lutar contra sua natureza, não significa que você tenha uma natureza fixa. A natureza humana é mutável, criativa, fluída, não há natureza humana enrijecida.  
Para evitar confusão, algumas pessoas denominam o Wu wei, de Wei wu wei. Que significa literalmente, agir não-agindo. O acréscimo do termo "wei" denota que este estilo de vida não significa ficar parado, inerte, morto. Pelo contrário, ele desbloqueia o que te impede de agir: o medo. A ação contida no Wu wei não tem por objetivo distorcer a realidade, nem idealizar, nem ter uma visão pejorativa, nem ter planos impossíveis, e nem esconder os seus desejos em locais que nem você ache.
O wu wei, quando bem compreendido, lentamente tira a mente do estado de confusão. A grande confusão da mente é a escolha. Preferimos gastar uma vida inteira escolhendo o que é melhor fazer, do que de fato ir fazer algo significativo. Se por um lado, esta confusão surge dos diversos ensinamentos que recebemos ao longo da vida, o wu wei, consiste em desaprender, é o ensinamento do desensinamento.   

Friday, March 28, 2014

Gratidão

Um dos sentimentos mais religiosos que existem, no bom sentido da palavra religioso, é o sentimento de gratidão. No cristianismo, em muitos contextos, talvez essa palavra tenha se associado à obediência, fazendo-se perder a real beleza da palavra. A lógica das religiões monoteístas, tanto do cristianismo como outros sistemas de crença, é a de que se um ser superior nos deu a vida e individualmente nos protege do mal, esse ser merece nossa obediência. Com a ideia de obediência, o que as religiões propõem, é que seus adeptos sigam seu caminho, caminho este marcado por um código de conduta, que recebe o título de "a vontade de Deus". Com isso, a religião, com seu poder político, e se aliando a outras forças ( o Estado, a família, a escola) , conseguiu durante séculos, e ainda atualmente, influenciar os rumos em que a sociedade se desenvolve.
Se você olhar por esse lado, certamente, tomará partido contra a religião. A posteriori concordo com essa decisão, mas acho que se perde um olhar interessante quando não se olha para o que exatamente a religião aponta. Não estou falando a respeito de Deus, pelo menos não exatamente.
Estou quase certo de que tem algo na vivência religiosa, que vai além do que chamam de alienação. Algo verdadeiro, mas que não confirma a tese monoteísta, pelo contrário, mostra de que terreno desconhecido os sacerdotes vêm se apropriando durante milênios, para dominar e manipular as massas. Me refiro à gratidão mencionada no começo do texto. Gratidão num senso diferente, mais no sentido da palavra compaixão. Esta gratidão não é um dever como propõe as religiões, não há ninguém para punir os ingratos, e ninguém para recompensar os gratos.
Por mais que sofremos, nos desgastemos, perdemos coisas e pessoas importantes, ainda assim é uma aventura e tanto estar vivo, não? E a morte é a garantia de que a vida merece ser celebrada, pois independente do que acontecer durante nossa vida, o sofrimento termina com a morte. Esse é o grande mistério, o mistério existencial, com que finalidade estou vivo? Acho que nenhum de nós tem a resposta para isto, e talvez nem seja uma pergunta sensata.  Numa certa feita, o guru Osho disse algo interessante sobre isso, não que eu seja um grande admirador dele. Ele perguntou aos seus discípulos: "Porque uma flor floresce?". Esta pergunta é semelhante com a pergunta " Porque estou vivo?", pois em ambas as coisas, não há um objetivo, mas inúmeras finalidades possíveis, tantas, que nem se pode dar uma resposta. O mais sensato é admirar a beleza da flor.
Em geral, até os 40 anos, as pessoas olham muito para o que ainda vão conquistar, o que precisam ter, quem ainda vão ser, a casa que irão construir e o que desejam. Ainda não tenho esta idade, mas pelo que ouço falar, e pelo que a teoria diz, chegada a meia-idade as pessoas começam a olhar mais para o que conquistaram ou para o que já possuem. Por esse e outros motivos, a sabedoria sempre esteve tão associada aos mais velhos, apesar de que em nossa cultura, há um movimento de inserção até mesmo dos idosos na lógica de mercado. Temos hoje velhinhos altamente consumidores! Mas antes que eu me desvie do assunto, o que quero falar é sobre essa mudança de postura que costuma ocorrer quando as pessoas ficam mais velhas. É o momento em que a pessoa desiste de perseguir as imagens idealizadas e passa a tentar encontrar os pontos positivos da realidade em que ela se encontra. Quando digo imagens idealizadas, me refiro ao que um indivíduo está tentando se tornar, a imagem a partir do qual ele traça os seus objetivos: o corpo, posição ou status que ele quer alcançar. Suspeito que a concretização dessas imagens não resulta na satisfação prometida. Trata-se de uma falsa promessa de felicidade. Suspeito disso, porque as coisas que eu julgava essenciais que alcancei não me trouxeram a paz. Talvez só as pessoas famosas e muito ricas possam atestar verdadeiramente isto. Temos exemplos e exemplos de artistas famosos que perderam o sentido de viver, mesmo dispondo da melhor comida, parceiros amorosos, diversão e prestígio que a sociedade poderia oferecer. Portanto aquelas pessoas que tanto almejamos nos tornar, na verdade, não estão necessariamente satisfeitas. A satisfação é uma postura mental! E não tenha dúvidas, uma pessoa satisfeita é uma pessoa grata. Não satisfeita no sentido comum, de se saciar de uma nova conquista, mas realmente satisfeita, no sentido de não precisar de muitas coisas que não possui. 

Wednesday, February 26, 2014

Precisamos de dinheiro?

Existe uma coisa no mundo que é facilmente capaz de legitimar a violência, a escravidão, exploração e injustiça. Não discordamos dele, ele é tido como tão natural, tão primário e necessário que seria impossível imaginar uma sociedade bem organizada sem ele. Quais seriam os parâmetros de uma sociedade sem dinheiro? É nossa tendência pensar que voltaríamos a época da barbárie, que o desenvolvimento tecnológico pararia e ninguém mais iria querer trabalhar, afinal o trabalho é uma coisa enfadonha, rotineira e cansativa: grande parte das pessoas não gostaria de ter a ocupação que têm. Escolhemos nosso trabalho, muitas vezes baseados na segurança, procuramos aquele que vai garantir nossa sobrevivência. Para os mais afortunados é apenas uma segurança psicológica, para outros é literalmente biológica, precisamos comer, mas em todos os casos envolvem necessidades sociais. Você já se perguntou o que significa quando vemos uma pessoa com certa instabilidade financeira gastar todo o dinheiro do mês com roupas de marca e um eletrônico?  
                Para se entender como o capitalismo funciona atualmente, é preciso falar sobre a relação entre o trabalhador e os donos das empresas. Digamos que o trabalhador trabalhe para comprar o que ele próprio produziu, deixe-me explicar. Com 20% de seu lucro o dono de uma empresa paga todos os seus funcionários, e com esse dinheiro que recebem, esses funcionários compram sem parar das grandes empresas, movimentando o mercado. Henry Ford foi um dos gênios malignos dessa lógica, o inaugurador da produção em série, conseguiu atingir um nível de produção jamais visto, e fazia parte do regulamento da empresa que os funcionários comprassem apenas automóveis Ford. Para Henry Ford era fundamental que seus funcionários ganhassem bem, pois em sua astúcia, ele sabia que seu sucesso dependia do mercado consumidor. Com a revolução das máquinas, uma onda de desemprego ameaçava o mundo, desemprego esse, que não era um bom negócio para a alta burguesia. O ser humano tem tecnologia suficiente para que as máquinas façam todo o serviço pesado por nós, mas é fundamental para a movimentação econômica que não estejamos desempregados e sejamos consumidores em potencial. Há uma série de empregos inúteis em nossa sociedade, que não vou citar em respeito aos que exercem essas profissões. Se deixarmos as máquinas trabalharem e cessarmos o consumismo desenfreado poderíamos trabalhar cerca de três horas por dia. Recentemente o simpático presidente Uruguaio, Pepe Mujica, afirmou em um de seus discursos que ao reduzir a jornada de trabalho de alguns setores para 6 horas por dia, as pessoas passaram a procurar dois empregos. Porque vivemos em uma sociedade altamente competitiva, precisamos de mais lucro! Para Pepe Mujica, e devo concordar com ele, é o mercado que rege o ser humano e não o contrário. Os produtos são lançados de acordo com a regra do lucro e não de acordo com nossas necessidades. Ou seja, é fundamental que a tecnologia seja lançada aos poucos, que troquemos de carro todo ano, que troquemos de celular, de Tv e de computador. Além do fato de que manter um celular velho nos faz sentir ultrapassados, ainda existe o fato de que os bens de consumo não são feitos para durar! A industria das lâmpadas por exemplo pode fazer lâmpadas que durem 100 vezes mais, mas isto não é um negócio lucrativo, não é mesmo? Toneladas de produtos são jogados no lixo todos os dias, a degradação ambiental consequente da pouca durabilidade dos produtos é gigantesca e completamente irracional! A investigação científica também fica a mercê do investimento financeiro, não há pesquisa se não há lucro, não se quer saber o quanto uma tecnologia nova pode ajudar as pessoas, e sim, o quanto  de dinheiro se pode obter delas. Na área de saúde mental por exemplo, temos o domínio da indústria farmacológica, e sua influência no meio acadêmico, que são os diagnósticos. Quanto mais diagnósticos, mais remédios vendidos, pois a lógica é transformar os problemas psicológicos todos em doenças, pois doenças só são tratadas com medicamentos. Deixar o mercado reger a si mesmo, confiando na mão invisível proposta por Adam Smith, é contribuir para que jogadores de futebol ganhem um salário de 500 mil, para que senadores ganhem 26,5 mil e professores ganhem apenas mil reais. Moro em uma cidade em que um metrô em construção deveria ser entregue a mais de 10 anos atrás, mas todo esse dinheiro oriundo da arrecadação de impostos vem sendo desviado; vivo em um país onde certos lideres religiosos arrecadam milhões e vivem em mansões de luxo a custa de seus fiéis.  O sucesso dessas instituições revela que quem está por baixo precisa e carece de segurança, de comida, saúde, conforto, casa, e por isso são influenciadas pelas promessas de líderes carismáticos que emanam riqueza e prosperidade. Este é um convite à reflexão, a estudar a história do dinheiro (que atualmente dita quem pode e quem não pode), e a não aceitar a exploração da classe trabalhadora. 

Saturday, February 1, 2014

Sobre a introversão

O que me motivou a escrever esse texto, além de minha introversão, foi a percepção de que vivemos em um mundo onde o extrovertido é muito mais valorizado, é reconhecido, tem amigos e consegue mais oportunidades. No geral, o introvertido sente um sentimento de culpa por sua introversão, ele tenta se adequar às exigências das outras pessoas, tenta se entrosar e se expor muitas vezes, mas ao sinal da primeira ameaça de punição, ele retorna para uma espécie de casulo que porventura ele possa ter criado, com um incrível sentimento de culpa.  É importante para mim, ressaltar que esse texto reflete grande parte da minha experiência pessoal, e que a intenção da minha escrita não é a de fazer uma demonstração ou manual de como superar o problema da introversão, problema este que ainda enfrento quase diariamente. O primeiro ponto que eu gostaria de tratar, é que a introversão não é algo a ser superado, ela é na verdade, um estilo psicológico, um modo de encarar e ver o mundo, e a pessoa introvertida ganha muito mais se souber utilizar este característica à seu favor, seja na interação com os amigos, na vida profissional ou na paquera. Existem pessoas que simplesmente não gostam de se expor constantemente, não irão iniciar interações em filas de bancos, nem vão fazer inúmeras participações nas aulas da faculdade. Elas têm mais interesse e capacidade em ler livros enquanto tomam um café quente em dia de chuva, assistir bons filmes, jogar xadrez com um(a) amigo(a), escrever, conversar a dois, falar menos dando mais oportunidade para a outra pessoa falar, viajar para o interior e conhecer cachoeiras. Isto não configura problema algum a princípio, não significa que a pessoa seja antissocial, nem que ela se acha superior, significa apenas que ela tem a capacidade de partir dos seus pensamentos, de seus sentimentos, de seu mundo interno para se posicionar no mundo, e não o contrário, como é o caso do extrovertido, que primeiro age, e depois reflete sobre o que ocorreu. Resumidamente, tanto a introversão como a extroversão tem suas vantagens e desvantagens, o extrovertido é alguém que vai mover as coisas e vai comunicar abertamente o seu posicionamento, já o introvertido vai reter algumas informações para depois chegar a conclusão do que é melhor a se fazer.  O ideal mesmo é que os entes humanos tivessem equilibradamente uma dose de introversão e uma dose de extroversão, mas é necessário entender que qualquer esforço obsessivo nesse sentido é prejudicial ao sujeito. Numa perspectiva rogeriana apenas a autenticidade é que pode fomentar o aprendizado necessário para tornar-se “humano”.  Quando Carl Rogers (1980) fala sobre autenticidade percebe-se como a autenticidade está para além das palavras, não se trata de seguir regras sobre o que uma pessoa autêntica deve fazer. O que posso dizer sobre autenticidade, posso dizer apenas sobre minha jornada rumo a autenticidade, e meu processo de tornar-me autêntico. É possível que o meu processo ( que está em andamento) carregue consigo leis universais, mas não me arrisco a explora-las, cabe ao leitor comparar minha situação com sua situação pessoal, e ver se partindo disso temos pontos em comum. Sobre mim, posso dizer que aceitar minha introversão tem sido como me livrar de um terrível peso sobre meus ombros, e ressalto que introversão não significa isolamento. Isolamento é patológico. Para Erickson (1976) o polo oposto do isolamento é a intimidade, e de fato, as pessoas se isolam porque temem o contato íntimo com outras pessoas, e elas podem fazer isto por vários motivos que descreverei. Esse é na verdade um dos maiores riscos da introversão, construir um casulo formado por regras muito rígidas, tão rígidas, que qualquer aproximação de outra pessoa pareça um ataque, pois já que cada pessoa tem seus próprios valores, é inevitável que questionemos os valores uns dos outros. Para uma boa convivência com os demais considero importante que cada pessoa conheça os seus valores pessoais, conheça quais são estas regras que regulam seu comportamento, porque o conhecimento desses valores, o popularmente chamado auto-conhecimento, é que permite que nos tornemos íntimos de outras pessoas. Conhecer a si mesmo permite ser congruente, mostrar quais são seus limites para o outro, superar seus limites e respeitar os limites das outras pessoas.  E finalmente, quando digo aceitar a introversão, me refiro a liberdade de escolher o que quero fazer, de manejar as cobranças sociais, de modo que se eu não quiser estar na companhia de muita gente naquele momento, posso fazer isto.  Apesar de estar distante disto, acredito na possibilidade de um ser humano gostar de sua própria companhia a tal ponto que suponha que os outros também irão gostar de tê-o como companhia.

Wednesday, December 4, 2013

Delírios

Delírios costumam infestar o sistema nervoso;
Como uma praga esses grandiosos seres pequeninos se espalham em rede;
Eles têm fome de pensamento. Não se engane;
Sua aparência é bonita,
É como um sedutor ou sedutora, que te espera com um punhal afiado guardado na gaveta do armário.
É como um veneno que vai esvaindo suas forças, e te corroendo por dentro. E o mais desastroso é que você tem sede desse veneno. Sua corrosão causa um buraco no estômago, que inocentemente queremos preencher com mais veneno.
É como o álcool, que se usado em pequenas doses te dá coragem para enfrentar o medo, mas se usado em grandes doses te tira o juízo. Se usado de vez em quando te deixa alegre, mas se usado sempre te deixa deprimido.
Eles podem nascer em qualquer lugar, são plantas espinhosas que brotam principalmente nos terrenos mais áridos, mas também podem nascer em bosques, florestas ou pradarias.
O homem que tem uma foice não deve hesitar em destruir essas ervas daninhas. Mas dá uma pena, sabe? Ver ele ali, tão bonitinho, tão na dele, cheio de boas intenções.
Mas se tu hesita ele te domina, ele usa você. Ele diz na beira do teu ouvido que tudo é uma grande bobagem, e que todos estão errados. E então ele diz que tu podes ser grande, grande como ele. Se olhares de relance acharás que suas raízes são tão profundas quanto o mundo. Mas se olhares bem, se saíres da hipnose, se veres como vê um transeunte que passa na via e observa sua cena com a planta, notaras que ele é pequeno. O delírio é minúsculo. É uma memória. Que vai ficando cada vez menor, sem importância. E você deixa ele lá no canto dele, tristonho. De castigo, quem sabe um dia... Quem sabe um dia, ele aprende a se comportar.  

Wednesday, October 23, 2013

Existe livre escolha?

O Condicionamento Humano II

Para uma melhor compreensão deste texto, o ideal é que o leitor leia o texto “O condicionamento humano” nesse mesmo blog. Segue o link:

O objetivo destes textos é de investigar junto ao leitor a existência de um modo de vida diferente, novo, em que termine tamanho sofrimento e conflito em que toda a humanidade tem estado submersa. Porém atentos para que não mergulhemos em idéias utópicas, ou algum tipo de droga romântica que visa nos isolar da realidade da sociedade. Existe o sofrimento, isso é um fato incontestável.

Hoje, vamos falar a respeito da questão do mérito. Eu, como ser humano, sinto que devo me esforçar para chegar à determinado alvo, e que se eu alcançar este alvo, foi graças ao meu esforço, seja minha carreira, minha esposa/marido, meu carro, minha reputação. Tenho acreditado piamente que tudo o que conquistei, todas às vitórias, ganhos, lucros, foram devido ao meu mérito próprio, meu esforço,  minhas escolhas. Por favor não diga: “mas é claro que me esforcei”. Com certeza sim, mas vamos investigar isso. Veja, se observo ao meu redor me deparo com uma sociedade desigual. Uns tem muitas propriedades e dinheiro, outros vivem abaixo da linha da miséria. Uns nascem em berço de ouro, outros nascem na total falta de recursos para se desenvolver fisicamente e intelectualmente. Alguém pode nascer ou sofrer alguma fatalidade durante a vida que o leve a alguma deficiência, e ter grandes dificuldades devido a falta de infra-estrutura e inserção que a organização social promove. Como ser humano tenho um acúmulo de experiências que decifram minha realidade, que literalmente controlam meus pensamentos, e colocado diante de uma determinada situação o pensamento opera interpretando de forma automática o que me cerca. Onde está o meu mérito então? Acaso nos esquecemos de quantas circunstâncias, pessoas, acontecimentos, experiências, foram necessárias para formar o que considero mais louvável: que sou eu? Será que chegamos a algum lugar por mérito próprio?
O que me leva a optar por “x” ao invés de “y”?
Está é a questão da escolha. Porque escolhemos, decidimos ?  A resposta é muito simples. É devido às minhas experiências que opto por uma escolha em detrimento da outra. Arthur Schopenhauer pronunciou palavras muito bem colocadas sobre a questão da escolha: “ O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer “. Se fossemos livres para querermos o que quiséssemos não haveria erros, todos nós optaríamos pelas melhores decisões para a humanidade e tudo correria bem. No entanto parece que a nossa vontade está condicionada pela nossa experiência, e como cada um de nós tem experiências superficialmente diferentes temos vontades diferentes. É nesse ponto que se encontra o perigo ao meu ver. Por favor não diga: “ Mas é obvio que temos vontades diferentes, o que há de mal nisso?”. Provavelmente não haja nada de mal nisso, mas existe algo no modo como lidamos com nossas vontades que as tornam deturpadas, egoicas. E é um fato obvio que o movimento egoico não é o melhor para a humanidade. Como cada indivíduo tem vontades diferentes, guerreamos por nossas vontades individuais. Eu acho que X é melhor, você acha que é Y. Eu acho que o meu deus é melhor, você acha que é o seu ou que é a ciência, e assim guerreamos, ou então, guerreamos por competição. Você diz "a vaga é minha" e eu digo "De forma nenhuma! ela é minha."; e simplesmente aceito o fato de só haver uma vaga. Porque não levanto a voz diante dessa situação? Porque não gritar sobre o que está acontecendo em todo o mundo?  

Existem estudos que demonstram que o cérebro comanda determinadas ações antes de o individuo ter consciência delas. O psicólogo Benjamin Libet através de um experimento mostrou que uma região do cérebro envolvida em coordenar a atividade motora apresentava atividade elétrica uma fração de segundos antes dos voluntários tomarem uma decisão, no caso, apertar um botão. Estudos posteriores corroboraram a tese de Libet, de que a atividade cerebral precede e determina uma escolha consciente. Provavelmente, a esta altura, o leitor estar se perguntando: “ Espere, Você está dizendo que escolhemos de forma automática baseado em nossas experiências? Isto não é determinista demais? Se for assim, o que adianta toda essa discussão, assassinos continuarão assassinos e farsantes continuarão farsantes, não é mesmo? ”. Pode o ser humano mudar isso? É isso que nos interessa investigar. Será que a partir do momento que o ser humano se torna consciente da realidade de que ele vêm sendo condicionado, de que ele tem diversos atos ritualísticos por repetição, por recompensa. Pode ele mudar? Isto é, pode ele duvidar de sua própria experiência? Poderemos habitar esta linda terra com vales, cascatas, plantas, montanhas, pássaros, o mar, tecnologia em favor do bem-estar, sem o repetitivo conflito em que vivemos?