Wednesday, February 26, 2014

Precisamos de dinheiro?

Existe uma coisa no mundo que é facilmente capaz de legitimar a violência, a escravidão, exploração e injustiça. Não discordamos dele, ele é tido como tão natural, tão primário e necessário que seria impossível imaginar uma sociedade bem organizada sem ele. Quais seriam os parâmetros de uma sociedade sem dinheiro? É nossa tendência pensar que voltaríamos a época da barbárie, que o desenvolvimento tecnológico pararia e ninguém mais iria querer trabalhar, afinal o trabalho é uma coisa enfadonha, rotineira e cansativa: grande parte das pessoas não gostaria de ter a ocupação que têm. Escolhemos nosso trabalho, muitas vezes baseados na segurança, procuramos aquele que vai garantir nossa sobrevivência. Para os mais afortunados é apenas uma segurança psicológica, para outros é literalmente biológica, precisamos comer, mas em todos os casos envolvem necessidades sociais. Você já se perguntou o que significa quando vemos uma pessoa com certa instabilidade financeira gastar todo o dinheiro do mês com roupas de marca e um eletrônico?  
                Para se entender como o capitalismo funciona atualmente, é preciso falar sobre a relação entre o trabalhador e os donos das empresas. Digamos que o trabalhador trabalhe para comprar o que ele próprio produziu, deixe-me explicar. Com 20% de seu lucro o dono de uma empresa paga todos os seus funcionários, e com esse dinheiro que recebem, esses funcionários compram sem parar das grandes empresas, movimentando o mercado. Henry Ford foi um dos gênios malignos dessa lógica, o inaugurador da produção em série, conseguiu atingir um nível de produção jamais visto, e fazia parte do regulamento da empresa que os funcionários comprassem apenas automóveis Ford. Para Henry Ford era fundamental que seus funcionários ganhassem bem, pois em sua astúcia, ele sabia que seu sucesso dependia do mercado consumidor. Com a revolução das máquinas, uma onda de desemprego ameaçava o mundo, desemprego esse, que não era um bom negócio para a alta burguesia. O ser humano tem tecnologia suficiente para que as máquinas façam todo o serviço pesado por nós, mas é fundamental para a movimentação econômica que não estejamos desempregados e sejamos consumidores em potencial. Há uma série de empregos inúteis em nossa sociedade, que não vou citar em respeito aos que exercem essas profissões. Se deixarmos as máquinas trabalharem e cessarmos o consumismo desenfreado poderíamos trabalhar cerca de três horas por dia. Recentemente o simpático presidente Uruguaio, Pepe Mujica, afirmou em um de seus discursos que ao reduzir a jornada de trabalho de alguns setores para 6 horas por dia, as pessoas passaram a procurar dois empregos. Porque vivemos em uma sociedade altamente competitiva, precisamos de mais lucro! Para Pepe Mujica, e devo concordar com ele, é o mercado que rege o ser humano e não o contrário. Os produtos são lançados de acordo com a regra do lucro e não de acordo com nossas necessidades. Ou seja, é fundamental que a tecnologia seja lançada aos poucos, que troquemos de carro todo ano, que troquemos de celular, de Tv e de computador. Além do fato de que manter um celular velho nos faz sentir ultrapassados, ainda existe o fato de que os bens de consumo não são feitos para durar! A industria das lâmpadas por exemplo pode fazer lâmpadas que durem 100 vezes mais, mas isto não é um negócio lucrativo, não é mesmo? Toneladas de produtos são jogados no lixo todos os dias, a degradação ambiental consequente da pouca durabilidade dos produtos é gigantesca e completamente irracional! A investigação científica também fica a mercê do investimento financeiro, não há pesquisa se não há lucro, não se quer saber o quanto uma tecnologia nova pode ajudar as pessoas, e sim, o quanto  de dinheiro se pode obter delas. Na área de saúde mental por exemplo, temos o domínio da indústria farmacológica, e sua influência no meio acadêmico, que são os diagnósticos. Quanto mais diagnósticos, mais remédios vendidos, pois a lógica é transformar os problemas psicológicos todos em doenças, pois doenças só são tratadas com medicamentos. Deixar o mercado reger a si mesmo, confiando na mão invisível proposta por Adam Smith, é contribuir para que jogadores de futebol ganhem um salário de 500 mil, para que senadores ganhem 26,5 mil e professores ganhem apenas mil reais. Moro em uma cidade em que um metrô em construção deveria ser entregue a mais de 10 anos atrás, mas todo esse dinheiro oriundo da arrecadação de impostos vem sendo desviado; vivo em um país onde certos lideres religiosos arrecadam milhões e vivem em mansões de luxo a custa de seus fiéis.  O sucesso dessas instituições revela que quem está por baixo precisa e carece de segurança, de comida, saúde, conforto, casa, e por isso são influenciadas pelas promessas de líderes carismáticos que emanam riqueza e prosperidade. Este é um convite à reflexão, a estudar a história do dinheiro (que atualmente dita quem pode e quem não pode), e a não aceitar a exploração da classe trabalhadora. 

Saturday, February 1, 2014

Sobre a introversão

O que me motivou a escrever esse texto, além de minha introversão, foi a percepção de que vivemos em um mundo onde o extrovertido é muito mais valorizado, é reconhecido, tem amigos e consegue mais oportunidades. No geral, o introvertido sente um sentimento de culpa por sua introversão, ele tenta se adequar às exigências das outras pessoas, tenta se entrosar e se expor muitas vezes, mas ao sinal da primeira ameaça de punição, ele retorna para uma espécie de casulo que porventura ele possa ter criado, com um incrível sentimento de culpa.  É importante para mim, ressaltar que esse texto reflete grande parte da minha experiência pessoal, e que a intenção da minha escrita não é a de fazer uma demonstração ou manual de como superar o problema da introversão, problema este que ainda enfrento quase diariamente. O primeiro ponto que eu gostaria de tratar, é que a introversão não é algo a ser superado, ela é na verdade, um estilo psicológico, um modo de encarar e ver o mundo, e a pessoa introvertida ganha muito mais se souber utilizar este característica à seu favor, seja na interação com os amigos, na vida profissional ou na paquera. Existem pessoas que simplesmente não gostam de se expor constantemente, não irão iniciar interações em filas de bancos, nem vão fazer inúmeras participações nas aulas da faculdade. Elas têm mais interesse e capacidade em ler livros enquanto tomam um café quente em dia de chuva, assistir bons filmes, jogar xadrez com um(a) amigo(a), escrever, conversar a dois, falar menos dando mais oportunidade para a outra pessoa falar, viajar para o interior e conhecer cachoeiras. Isto não configura problema algum a princípio, não significa que a pessoa seja antissocial, nem que ela se acha superior, significa apenas que ela tem a capacidade de partir dos seus pensamentos, de seus sentimentos, de seu mundo interno para se posicionar no mundo, e não o contrário, como é o caso do extrovertido, que primeiro age, e depois reflete sobre o que ocorreu. Resumidamente, tanto a introversão como a extroversão tem suas vantagens e desvantagens, o extrovertido é alguém que vai mover as coisas e vai comunicar abertamente o seu posicionamento, já o introvertido vai reter algumas informações para depois chegar a conclusão do que é melhor a se fazer.  O ideal mesmo é que os entes humanos tivessem equilibradamente uma dose de introversão e uma dose de extroversão, mas é necessário entender que qualquer esforço obsessivo nesse sentido é prejudicial ao sujeito. Numa perspectiva rogeriana apenas a autenticidade é que pode fomentar o aprendizado necessário para tornar-se “humano”.  Quando Carl Rogers (1980) fala sobre autenticidade percebe-se como a autenticidade está para além das palavras, não se trata de seguir regras sobre o que uma pessoa autêntica deve fazer. O que posso dizer sobre autenticidade, posso dizer apenas sobre minha jornada rumo a autenticidade, e meu processo de tornar-me autêntico. É possível que o meu processo ( que está em andamento) carregue consigo leis universais, mas não me arrisco a explora-las, cabe ao leitor comparar minha situação com sua situação pessoal, e ver se partindo disso temos pontos em comum. Sobre mim, posso dizer que aceitar minha introversão tem sido como me livrar de um terrível peso sobre meus ombros, e ressalto que introversão não significa isolamento. Isolamento é patológico. Para Erickson (1976) o polo oposto do isolamento é a intimidade, e de fato, as pessoas se isolam porque temem o contato íntimo com outras pessoas, e elas podem fazer isto por vários motivos que descreverei. Esse é na verdade um dos maiores riscos da introversão, construir um casulo formado por regras muito rígidas, tão rígidas, que qualquer aproximação de outra pessoa pareça um ataque, pois já que cada pessoa tem seus próprios valores, é inevitável que questionemos os valores uns dos outros. Para uma boa convivência com os demais considero importante que cada pessoa conheça os seus valores pessoais, conheça quais são estas regras que regulam seu comportamento, porque o conhecimento desses valores, o popularmente chamado auto-conhecimento, é que permite que nos tornemos íntimos de outras pessoas. Conhecer a si mesmo permite ser congruente, mostrar quais são seus limites para o outro, superar seus limites e respeitar os limites das outras pessoas.  E finalmente, quando digo aceitar a introversão, me refiro a liberdade de escolher o que quero fazer, de manejar as cobranças sociais, de modo que se eu não quiser estar na companhia de muita gente naquele momento, posso fazer isto.  Apesar de estar distante disto, acredito na possibilidade de um ser humano gostar de sua própria companhia a tal ponto que suponha que os outros também irão gostar de tê-o como companhia.

Wednesday, December 4, 2013

Delírios

Delírios costumam infestar o sistema nervoso;
Como uma praga esses grandiosos seres pequeninos se espalham em rede;
Eles têm fome de pensamento. Não se engane;
Sua aparência é bonita,
É como um sedutor ou sedutora, que te espera com um punhal afiado guardado na gaveta do armário.
É como um veneno que vai esvaindo suas forças, e te corroendo por dentro. E o mais desastroso é que você tem sede desse veneno. Sua corrosão causa um buraco no estômago, que inocentemente queremos preencher com mais veneno.
É como o álcool, que se usado em pequenas doses te dá coragem para enfrentar o medo, mas se usado em grandes doses te tira o juízo. Se usado de vez em quando te deixa alegre, mas se usado sempre te deixa deprimido.
Eles podem nascer em qualquer lugar, são plantas espinhosas que brotam principalmente nos terrenos mais áridos, mas também podem nascer em bosques, florestas ou pradarias.
O homem que tem uma foice não deve hesitar em destruir essas ervas daninhas. Mas dá uma pena, sabe? Ver ele ali, tão bonitinho, tão na dele, cheio de boas intenções.
Mas se tu hesita ele te domina, ele usa você. Ele diz na beira do teu ouvido que tudo é uma grande bobagem, e que todos estão errados. E então ele diz que tu podes ser grande, grande como ele. Se olhares de relance acharás que suas raízes são tão profundas quanto o mundo. Mas se olhares bem, se saíres da hipnose, se veres como vê um transeunte que passa na via e observa sua cena com a planta, notaras que ele é pequeno. O delírio é minúsculo. É uma memória. Que vai ficando cada vez menor, sem importância. E você deixa ele lá no canto dele, tristonho. De castigo, quem sabe um dia... Quem sabe um dia, ele aprende a se comportar.  

Wednesday, October 23, 2013

Existe livre escolha?

O Condicionamento Humano II

Para uma melhor compreensão deste texto, o ideal é que o leitor leia o texto “O condicionamento humano” nesse mesmo blog. Segue o link:

O objetivo destes textos é de investigar junto ao leitor a existência de um modo de vida diferente, novo, em que termine tamanho sofrimento e conflito em que toda a humanidade tem estado submersa. Porém atentos para que não mergulhemos em idéias utópicas, ou algum tipo de droga romântica que visa nos isolar da realidade da sociedade. Existe o sofrimento, isso é um fato incontestável.

Hoje, vamos falar a respeito da questão do mérito. Eu, como ser humano, sinto que devo me esforçar para chegar à determinado alvo, e que se eu alcançar este alvo, foi graças ao meu esforço, seja minha carreira, minha esposa/marido, meu carro, minha reputação. Tenho acreditado piamente que tudo o que conquistei, todas às vitórias, ganhos, lucros, foram devido ao meu mérito próprio, meu esforço,  minhas escolhas. Por favor não diga: “mas é claro que me esforcei”. Com certeza sim, mas vamos investigar isso. Veja, se observo ao meu redor me deparo com uma sociedade desigual. Uns tem muitas propriedades e dinheiro, outros vivem abaixo da linha da miséria. Uns nascem em berço de ouro, outros nascem na total falta de recursos para se desenvolver fisicamente e intelectualmente. Alguém pode nascer ou sofrer alguma fatalidade durante a vida que o leve a alguma deficiência, e ter grandes dificuldades devido a falta de infra-estrutura e inserção que a organização social promove. Como ser humano tenho um acúmulo de experiências que decifram minha realidade, que literalmente controlam meus pensamentos, e colocado diante de uma determinada situação o pensamento opera interpretando de forma automática o que me cerca. Onde está o meu mérito então? Acaso nos esquecemos de quantas circunstâncias, pessoas, acontecimentos, experiências, foram necessárias para formar o que considero mais louvável: que sou eu? Será que chegamos a algum lugar por mérito próprio?
O que me leva a optar por “x” ao invés de “y”?
Está é a questão da escolha. Porque escolhemos, decidimos ?  A resposta é muito simples. É devido às minhas experiências que opto por uma escolha em detrimento da outra. Arthur Schopenhauer pronunciou palavras muito bem colocadas sobre a questão da escolha: “ O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer “. Se fossemos livres para querermos o que quiséssemos não haveria erros, todos nós optaríamos pelas melhores decisões para a humanidade e tudo correria bem. No entanto parece que a nossa vontade está condicionada pela nossa experiência, e como cada um de nós tem experiências superficialmente diferentes temos vontades diferentes. É nesse ponto que se encontra o perigo ao meu ver. Por favor não diga: “ Mas é obvio que temos vontades diferentes, o que há de mal nisso?”. Provavelmente não haja nada de mal nisso, mas existe algo no modo como lidamos com nossas vontades que as tornam deturpadas, egoicas. E é um fato obvio que o movimento egoico não é o melhor para a humanidade. Como cada indivíduo tem vontades diferentes, guerreamos por nossas vontades individuais. Eu acho que X é melhor, você acha que é Y. Eu acho que o meu deus é melhor, você acha que é o seu ou que é a ciência, e assim guerreamos, ou então, guerreamos por competição. Você diz "a vaga é minha" e eu digo "De forma nenhuma! ela é minha."; e simplesmente aceito o fato de só haver uma vaga. Porque não levanto a voz diante dessa situação? Porque não gritar sobre o que está acontecendo em todo o mundo?  

Existem estudos que demonstram que o cérebro comanda determinadas ações antes de o individuo ter consciência delas. O psicólogo Benjamin Libet através de um experimento mostrou que uma região do cérebro envolvida em coordenar a atividade motora apresentava atividade elétrica uma fração de segundos antes dos voluntários tomarem uma decisão, no caso, apertar um botão. Estudos posteriores corroboraram a tese de Libet, de que a atividade cerebral precede e determina uma escolha consciente. Provavelmente, a esta altura, o leitor estar se perguntando: “ Espere, Você está dizendo que escolhemos de forma automática baseado em nossas experiências? Isto não é determinista demais? Se for assim, o que adianta toda essa discussão, assassinos continuarão assassinos e farsantes continuarão farsantes, não é mesmo? ”. Pode o ser humano mudar isso? É isso que nos interessa investigar. Será que a partir do momento que o ser humano se torna consciente da realidade de que ele vêm sendo condicionado, de que ele tem diversos atos ritualísticos por repetição, por recompensa. Pode ele mudar? Isto é, pode ele duvidar de sua própria experiência? Poderemos habitar esta linda terra com vales, cascatas, plantas, montanhas, pássaros, o mar, tecnologia em favor do bem-estar, sem o repetitivo conflito em que vivemos?   

Friday, August 30, 2013

O condicionamento humano I

Se eu pudesse obter a resposta para qualquer pergunta, quais seriam as perguntas mais importantes a serem feitas?

Porque sofremos? Porque não temos tempo para fazer as coisas mais essenciais da vida? Porque construímos um mundo cheio de ódio, violência, segregação, guerra, fome, disputa, ganância, ilusão? Porque nos sentimos tão incapazes perante a esses fatos? Qual é a sua resposta?

Talvez eu já tenha tentado mudar tantas e tantas vezes e continuei o mesmo, que acabei desistindo. Me agarro à alguma forma de ilusão que diz que tudo vai ficar bem, que estou melhorando, que estou indo atrás dos meus objetivos, que alguém vai fazer por mim o que deve e só pode ser feito por eu mesmo. Como alguém pode mudar os relacionamentos de outra pessoa? Como alguém pode trazer paz real para a vida de outra pessoa? Como alguém pode mudar a sociedade? Os lideres comunista tentaram, Stalin, Che Guevara, Lenin, Fidel Castro, Mao-tsé-Tung. Mas nós vimos o fracasso dos regimes socialistas em todo o mundo, a tremenda repressão que existiu nesses países, a confusão e conflito gerado. Porque os comunistas esperavam que Stalin resolvesse os seus problemas. O ser humano sabe a condição precária em que vive em todas as partes do mundo, mas o ser humano acredita não ser capaz de mudar, acredita que a humanidade é assim mesmo. Porque? A sociedade é formada por cada ser humano, e cada um de nós está terrivelmente condicionado, de tal forma, que o condicionamento é tudo o que conhecemos. É como ter vivido a vida inteira dentro de uma cerca sem saber que existia um mundo maravilhoso la fora. 

Nos identificamos com alguma autoridade: Hitler, Stalin, Freud, e isso nos dá uma segurança, um alívio. Nos identificamos com um grupo, e passamos a supervalorizar esse grupo, colocando-o fora da humanidade. Dizemos a nós mesmos: o ser humano é assim mas o meu grupo é diferente, o grupo a que pertenço é melhor, nós sabemos a verdade, nós somos o que há de melhor na humanidade. Somos arianos, vegetarianos, somos mulçumanos, somos a luz da humanidade. Longe de todos esses rótulos, que eu instituo para mim mesmo, continuo sendo um ser humano, como todos os demais. Com a minha dificuldade diária, inveja, ciúme, correndo atrás de dinheiro, buscando fama, e com um enorme egocentrismo. Tudo que importa são as coisas relativas ao Eu. Minha esposa, meu carro, minha família, meu Estado. Existe um mundo inteiro além disso. O mundo parece não importar, o Eu é a instância mais importante do universo. Daí vemos toda a degradação ambiental, espécies em extinção, poluição do ar. 
Muitos de nós nos apegamos a pequenos valores como o fato de não falar palavrão ou não comer carne para idealizar a imagem que fazemos de nós mesmos. Pode um ser humano ver o fato de que ele e o resto da sociedade fazem parte do mesmo condicionamento? Toda vez que eu grito, entro numa discussão, ataco, insulto, corro atrás do vento, eu elaboro minunciosamente uma justificativa para isso. " Eu fiz isso, mas alguém me feriu". E assim o gigante ciclo de ignorância tem perdurado por milhares de anos de existência do ser humano. Todos nossos instrumentos para lidar com isso tem se mostrados insuficientes, o ser humano continua sendo o mesmo bárbaro de antigamente.
Porque eu, você, eles, nós não mudamos? 




Saturday, April 13, 2013

Descartes: descobrimento ou invenção da subjetividade?


Para o filósofo francês René Descartes todos os seres humanos possuem a razão, o que difere é o seu uso. Descartes nasceu no século XVI, uma época em que o conhecimento científico ainda se encontrava completamente desorganizado, e não havia um método para construí-lo. As discussões filosóficas da época giravam em torno de opiniões muito diversificadas que não chegavam a nenhuma conclusão evidente. Os escolásticos dominavam os pensamentos e os preceitos com os quais se buscava alcançar a verdade; preceitos estes, que surgiram de uma releitura das obras de Aristóteles, ajustadas às verdades cristãs.
Foi neste contexto que Descartes foi educado, no colégio jesuíta de La Flèche, uma das escolas mais renomadas da Europa naquele período. Quando concluiu seus estudos em La Fleche, Descartes estava decepcionado, pois ao invés de ter adquirido conhecimentos verdadeiros durante os anos de estudo, ele estava repleto de dúvidas. Para ele, o grande proveito que tirou de seus anos de estudo foi o de descobrir sua própria ignorância e a distância entre aquilo que era ensinado nas escolas e o conhecimento verdadeiro. Motivado por esta frustração, Descartes desenvolve a dúvida metódica, para alcançar algo sólido e evidente. Com este método ele pretendeu colocar a prova da razão, tudo aquilo que é dubitável, para assim alcançar algum conhecimento, e a partir dele desenvolver sua filosofia. Entretanto, Descartes não pode ser considerado um cético absoluto, pois seu método da dúvida, visava retirar a confiança dos preceitos estabelecidos, para posteriormente alcançar a Verdade; já os céticos não acreditam na possibilidade de existir uma verdade absoluta.
Desta forma, Descartes colocou em questão todo o conhecimento aceito na época; ele aplicou o método da dúvida em diversos setores, inclusive em suas experiências. Para ele tudo o que julgou verdadeiro até aquele momento foi devido a sua experiência sensorial. Os sentidos, a principio, foram tomados por Descartes como enganosos, pois nem sempre um objeto tem o tamanho ou as propriedades que ele aparenta ter. Há ainda aqueles que acreditam serem reis sendo mendigos. Como saberia ele se ele também não estava enganado a respeito de sua auto-imagem? Durante um sonho, uma pessoa acredita firmemente se tratar de um acontecimento real, mas ao acordar, ela percebe se tratar de um sonho. Não se poderia supor que existe a chance de passarmos pelo mesmo processo de ilusão durante a vida de vigília?
Em meio a esta nuvem de dúvidas, Descartes percebeu que, ao pensar, ele poderia duvidar de praticamente tudo, menos de que ele estava pensando. Ele não poderia duvidar que duvida. Deste pensamento nasceu sua primeira máxima: Penso, logo existo. Cogito ergo sum. A partir desta máxima conseguiu sair de sua dúvida absoluta, mas ainda permaneceu preso ao cogito. Ele havia confirmado sua própria existência, mas isto era insuficiente para a elaboração da Ciência Moderna. Ele precisava provar a existência do mundo e das coisas que viriam a ser os objetos de estudo da Ciência no futuro. Entretanto, um dos preceitos básicos do seu método era a regra da evidência, na qual ele decide que irá aceitar em seus juízos somente aquilo que se mostre de forma clara e distinta, ou seja, apenas irá aceitar como conhecimento concreto aquilo que seja indubitável; aquilo que o enganou pelo menos uma vez, passa a ser considerado por ele como enganador.  Esta última ideia de que se ele se engana alguma vez pode estar enganado sempre, fez com que Descartes, em suas meditações, inventasse o deus enganador. O deus enganador foi o ápice da dúvida cartesiana a cerca da credibilidade do mundo sensível. O deus enganador era a suposição de que, havia um ser que dispunha todas as coisas de modo a fazer o homem acreditar que as coisas são diferentes do que de fato elas são. Até as verdades mais obvias da matemática ganhavam uma interrogação com este argumento. O deus enganador, mais tarde chamado de gênio maligno, foi um enorme problema que só pôde ser solucionado, através da prova da existência de Deus, como ser perfeito, infinito e não-enganador.
A primeira observação de Descartes que conduzia a prova da existência de Deus é a de que ele, Descartes, era um ser imperfeito e finito, mas nele existia a ideia de perfeição e de infinito. A ideia de perfeição não poderia ter surgido de um ser que está abaixo da hierarquia do ser perfeito, ou seja, a ideia de perfeição não poderia ter surgido de um ser imperfeito. Descartes considerava a si mesmo como imperfeito por ele duvidar. Se ele duvidava, é por que não possuía o conhecimento total e verdadeiro, logo era imperfeito, e devido a essa imperfeição, necessitava do método para conhecer a verdade das coisas, ou seja, conhecer Deus.
Descartes provou a existência de Deus, através da própria noção de Deus, que é a marca deixada pelo criador nos homens. Provada a existência de Deus, Descartes pôde sair do cogito e assegurar a existência das coisas materiais, uma vez que, Deus é perfeito e não-enganador. No entanto, Descartes persiste na ideia de que ele é a razão, aquilo pensa, sente ( Res cogitans) e isto é uma substância de natureza diferente do corpo e da materialidade ( Res extensa). Esta distinção entre o Cogito e o mundo feita por Descartes repercutiu em impactos significativos que perduram até os dias de hoje. Através dela o homem efetuou sua separação absoluta da natureza e pode desenvolver o método cientifico, com impactos positivos e negativos. As outras regras do método cartesiano: “dividir, analisar e enumerar” também influenciaram profundamente o estilo de vida das pessoas, sobretudo na relação do homem com a natureza e com as outras pessoas. Observa-se que Descartes valorizou a prova de sua existência, ou seja, do cogito; e da existência de Deus, como garantia de que existem outras coisas além dele. A existência do mundo através de Deus garantiu a fundação da ciência moderna e de todas as suas descobertas e invenções. As coisas se tornaram fatos a serem estudados, divididos e analisados. Descartes não se preocupou em evidenciar a existência do “outro”. Na visão de mundo originada de Descartes, o que existe são um conjunto de “cogitos”, cada qual garantindo sua própria existência isolada dos demais e do mundo. O mundo é um objeto, do qual deve-se buscar conhecer e extrair suas verdades. O observador e o observado, foram separados como duas substâncias de natureza distinta. No entanto a psicologia contemporânea e as neurociências vêm trazendo novas idéias que poderão reformular esta visão de mundo. Os estudos recentes apontam para a ideia de que quando um individuo olha para um objeto ele enxerga mais suas próprias características do que características inerentes a natureza do objeto. É uma releitura, do que já dizia Descartes, a respeito da falibilidade dos sentidos.
É concedido a Descartes o titulo de “ pai da ciência moderna”. Graças a seu método, a ciência pode fazer avanços inestimáveis e as tradições medievais foram  superadas. Como ele propôs, sua filosofia se tornou as raízes da arvores do conhecimento; a física, durante muito tempo foi o tronco; e as outras ciências foram os frutos.
No atual momento histórico o ser humano alcançou todo este avanço nas ciências, mas  a humanidade como um todo continua passando por sofrimentos psíquicos, guerras, conflito, violência, preconceitos e uma crise ecológica a nível global. Portanto, nos próximos anos, a ciência deverá passar por uma reforma no modo de investigação da natureza. Deverá abandonar os padrões individualistas, e se atentar para os problemas sociais, uma vez que estes já não atingem mais apenas uma parcela da população, mas a população como um todo; se é que um dia foi diferente. 

Saturday, September 22, 2012

Rede de ilusões (conto)


O rei sentou-se na cama e leu os jornais. Mais tarde trouxeram-lhe café; com pouco açúcar e um bolo de morango bastante apetitoso. Comeu somente a metade, bebericou o café e olhou para os empregados que fizeram cara feia enquanto o rei que não gostara do café resmungava: “será possível que não se encontra ninguém que saiba trabalhar direito”. Ficou na cama até tarde; levantou-se apenas na hora de jogar golfe. Começou fazendo belas tacadas; na primeira bateu com tanta precisão que sorriu para si mesmo. Mas logo se cansou, queria público, não podia jogar sozinho apenas ele e um empregado que carregava o material esportivo. 
O rei voltou para casa e foi planejar as batalhas com seu general ao seu lado. O rei considerava o general um verdadeiro hipócrita, via claramente a falsidade naquele sorriso morto. Entre vários pensamentos o rei movia as peças de um tabuleiro de um lado para o outro; enquanto o general dava sugestões. A mente da majestade divagava, pensando em diversas possibilidades na frente de batalha; o inimigo estava por todo o lado; isso fazia sua mente dar um terrível nó e se exaurir. Cansado de planejar as batalhas e aborrecido, o rei dispensou o general, pediu para que ele cuidasse do resto. “Pouco me importo com o resultado dessas batalhas”: pensou o rei; mas na verdade se importava. Ele era o rei de um povo, milhares de pessoas dependiam dele; ah e seus pais... Se estivessem vivos o que pensariam deste reinado que ele estava levando? O reinado de um louco com certeza! O povo passava fome lá fora, o inimigo se aproximava, destruía vilarejos, estava tudo errado... Tudo errado. Enquanto o caos e os conflitos se espalhavam generalizados pelo reino, o rei permanecia lá no conforto de sua casa, seu castelo; mas no desconforto de sua mente, seu templo. As imagens de um reino miserável iam e vinham em sua mente sem parar, os sons de gritos agonizantes bailavam no ar. Então sua mente lutava, ele pensava em salvar o reino, fazer história, ser um grande rei pra sempre lembrado. Isso o confortava; fazia planos e planos para o reino, enquanto a realidade ia sendo distorcida; por fim não sabia mais o que era real. Para livrar-se da terrível culpa e da responsabilidade, usava a imaginação; mas as notícias dos desastres do país sempre chegavam aos seus ouvidos, fazendo-o desabar, voltar para desesperança, alimentando um ciclo sem fim. No meio deste nevoeiro de sentimentos a majestade estava na banheira deixando a água bater em suas costas e escorrer. Tornou-se cônscio da natureza de seus pensamentos. As águas limpam o corpo e a alma; o movimento das águas na banheira era como um reajuste mental, suave e sereno. Pequenas ondas se formavam ao redor do centro de tudo isto, que coincidia exatamente com o corpo do rei. O nevoeiro se tornou visível, iluminado; os nós se desfizeram; o corpo sentiu a água de um jeito totalmente novo... Ah! Que tranqüilidade! Que sensação! Há quanto tempo não sentia a água assim... Aquele homem sorriu repentinamente. Os defuntos morreram, os vivos viveram, e a história começou novamente do início. Um dia a história chegará ao fim.